Os Malinos são mesmo Malinos!

 

Mas são um encanto a tocar bombo e caixa. Não cheguei a vê-los a tocar gaita-de-foles nem concertina mas, só pela conversa, deu para perceber que devem ser mesmo bons em tudo.

 

Na nossa última noite em Arcos de Valdevez, deu para ouvir uma “bombarda terrível” que até parecia que os cavalos de Afonso de Leão e do nosso Afonso, o Conquistador, estavam irrequietos, prontos para entrar numa dança em vez de um combate. Ainda pensei voltar para trás e ir ter com os bombos mas a coisa não estava bem para eu aumentar mais um pedacinho à minha caminhada.

 

No dia seguinte havia por ali, nas belas águas do rio Vez, outro torneio, não de vida ou de morte, mas de Kaiaks. Haviam por ali carrinhas de várias localidades e motocars e até parecia que tudo aquilo estava em festa, mas também quando o Norte não está em festa, quem está? Demos por ali umas voltas, pelas zonas do Vale, pelo Mezio e por Travanca e regressamos à vila, depois de cumprimentar os meus amigos de milénios.

 

 

                          Aqui jazem homens de antanho

 

Em Arcos de Valdevez, tivemos de arranjar onde almoçar e, para isso, teria de ser um local onde coubesse o meu amigo Zé! Fomos ao local perguntar se podíamos almoçar na Esplanada onde teríamos o Zé junto de nós e à sombra. Assim foi. Havia uma mesa para cinco e para o Zé junto de nós. À nossa volta alguma rapaziada vestida de verde. 16, se sei contar. Mas levantei-me e procurava os lavatórios, porque não conhecia o restaurante que tinha sido todo renovado. Um rapaz, dos vestidos de verde logo se prestou a dar a sua ajuda e indicou-me por onde ir. Lá fui. Atravessei aquela “Floresta” toda, era assim que se chamava o Restaurante, e quando cheguei deu-me para ler a camisola que me tinha indicado os lavabos. Na camisola estava escrito os Malinos. Olhei os outros e tinham escrito a mesma palavra e a casa que os ajudava nas suas andanças – uma salsicharia. Virei-me para o que estava mais perto e perguntei-lhe: «vocês são Malinos a fazer o quê»?

 

Daí veio todo o historial do grupo. “ Nós somos Malinos a tocar bombo, a tocar caixa, a tocar gaita galega, a tocar concertina”! Um puto com 22 anos que tinha todo o jeito de ser o “cabecilha” e que irradiava simpatia por todos os poros, apresentou-me a sua rapaziada que ia desde uma menina de 12 anos que tocava concertina até o mais velho com 28 anos que tocava bombo. O chefe tem 22 anos e toca caixa. Os mais velhos que faziam parte do grupo trabalhavam em vários ramos e tinham de tomar conta do bombo em dias de festa.

 

O chefe do grupo ofereceu-me um cartão e depois ainda voltou ao restaurante para me oferecer um postal com a imagem do grupo em equipamento laranja. Eles vestem camisola verde ou camisola laranja.

 

 

                                    

 Os Malinos em camisola laranja

 

Faziam parte de outro grupo de Zé P’reiras, mas zangaram-se e os que partiram formaram um grupo novo. Agora a sua condição de Malinos dá bem para rebentar com os bombos e ganhar prémios. Tocam tanto bombo que têm de proteger as mãos todas calejadas. Para eles rebentar com as peles dos bombos, partir baquetas e arrasar em volta, bater os seus velhos amigos, é condição necessária. Tão necessária, como beber 14 litros de água por dia, nestes dias de intenso calor para continuarem a “bombar” nos instrumentos.

 

 

                     Eis o Malinos a actuar no adro da Igreja do Souto

 

Depois do almoço regressamos à auto-estrada pelo lugar do Souto onde eles iam actuar. Chegamos no fim, mas deu para ver que eles são mesmo bons! Debaixo daquele calor arrasador as grandes bandas esperavam a sua vez, mas tinham de aguardar a actuação dos Malinos. Perguntei-lhe pelas gaitas de foles e pelas meninas das concertinas, ele com tristeza no olhar, por não os vermos em todo o seu esplendor, disse-me que já tinham actuado. Uma das meninas disse-me: «venham à festa dos Arcos e vão ver o maior show da vossa vida, com bombos, caixas, concertinas e gaitas galegas».

 

 

                 Eles continuam bombando

 

Falo-vos nos meus amigos Zé P’reiras, os Malinos porque eles são mesmo Malinos. São Malinos contra o ócio, contra a tristeza, contra a vida inútil da maioria da nossa juventude. Eles transpiram alegria e transformam o semblante daqueles que por razões várias a sorte não bafejou ainda. Eles levam alegria cheia de música ás ruas dos Arcos, do Souto e de muitas terras do nosso Minho. Eles conseguiram mostrar-me que tocar bombo, tocar caixa, e outros instrumentos é muito difícil, mas vale a pena viver a vida como gostamos.

 

 

 

E assim terminaram com esperança de que, em Agosto, ainda ouçamos e vejamos as gaitas de foles e as concertinas

Boa sorte, na vossa Caminhada, amigos Malinos!

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 22:39