Topo da serra de Soajao. A minha serra, vista por cima!

Depois de subirmos aquela encosta do Muranho, logo no cimo, topamos com os montes que não vemos caminhando na estrada, nem enquanto subimos. Agora olhamos a nossa serra, por cima, mas não deixamos de deitar o olho em redor.

Vou mostrar-vos o que vemos a caminho da Pedrada depois de atingirmos o espaço de onde a vemos sempre, mantendo-se à nossa disposição. Desde o cerro que tem por cabeça o alto da Derrilheira, vamos ver a Pedrada e todo o seu espaço envolvente.

 

 

Depois de atingirmos aquele cerro que vai desde a Serrinha ao Alto da Derrilheira, vemos, lá à frente, o Alto da Pedrada que, com a ajuda da minha teleobjectiva parece em frente do nosso nariz, mas ainda falta um pouco para lá chegarmos.

 

 

Olhando em frente, por cimo da Corga da Vagem, rumo à zona do Mezio, passamos as vistas pelo topo dos montes de Bordença

 

Mas o nosso destino é a Pedrada, tendo de passar antes por perto do Fojo do Lobo. Por isso, seguimos pela margem esquerda da Corga da Vagem, rumo à Fonte das Forcadas, mas desviando-nos mais para a direita.

 

 

Do lado direito da Corga da Vagem está tudo queimado, o fogo veio subindo dos montes de Bordença e veio também dos lados de Travanca e do rio Ramiscal atacando a Pedrada em volta. 

 

 

 

Do lado de lá, o Alto da Pedrada, do lado de cá a subida para a Serrinha e no meio a Corga da Vagem.

 

 

Do cimo da Corga da Vagem, há, para o lado de trás, em direcção à Seida, a Corga das Forcadas, no cimo da qual fica a fonte das Forcadas, famosa noutros tempos, nos dias das montarias ao lobo. Era ali que se juntavam e contavam os lobos abatidos.

 

 

Uma beleza estragada pelos incêndios que de vez em quando varrem o seu solo. Antigamente os gados comiam tudo e os incêndios não eram tão desvastadores

 

 

Quando desço da Pedrada, costumo fazê-lo por essa encosta rumo ao Olho do Avô, onde costumo beber água na sua nascente. Desta vez não fomos lá, passamos mais por cá dessa nascente porque o destino era a fonte da Corga da Vagem. 

 

 

Mas mesmo num mundo de caos, há sempre lugar para o amor, como estes dois que são bem diferentes mas não desperdiçam o momento. Talvez queiram dar origem a outra espécie ou não queiram perder o ímpeto da globalização.

 

 

A Corga da Vagem é a água mais cimeira que passa por Bordença. Mais abaixo há uma grande queda de água que se nota bem a sua espectacularidade durante os invernos chuvosos. Eu já a vi com todo o furor e foi a primeira grande queda de água que vi na minha vida. No fundo do poulo, no meio das urzes verdes que se vêm, nasce mais água. Quando ouvirem falar na fonte da Corga da Vagem é disso que se trata. Vê-la-emos mais tarde. Mas há outras nascentes mais acima, no meio das urzes. É aí que a corga toma nome. Essa corga tem sempre água. Mas a nossa fonte, aquela onde matamos a sede, é no fundo do poulo, na margem esquerda.

 

 

Por trás da montanha queimada fica Sistelo. Entre aquela montanha e a encosta que sobe até à Pedrada, fica o rio Ramiscal 

 

 

Agora caminhávamos em direcção às Forcadas. Aqui, uma zona protegida por outro incêndio anterior ...

 

 

... mas vamos desviar-nos para o Fojo do Lobo. 

 

 

À nossa frente está a Seida e lá na ponta vê-se o estradão que nos pode levar até Sistelo, mas julgo que nem os jipes lá andarão. 

 

 

Caminhando para o Fojo do Lobo, temos à nossa esquerda a Corga das Forcadas. O Jack, já ficou para trás, enquanto eu e o Luis fomos dar a volta e atingir os nossos objectivos. Ele foi para a Fonte da Corga da Vagem, sentar-se à sombra das urzes que escaparam ao incêndio, devido à água e colocar o vinho e as cervejas no "frigorífico natural", para quando nós chegássemos estarem fresquinhas. Pelo menos foi assim que foi combinado! 

 

 

Já estamos por cima da Brusca e vamos virar à esquerda rumo ao Fojo do Lobo. Esta parte da montanha não ardeu porque tinha havido uma queimada anterior que, devido à pequenez do mato, fez de corta-fogo. Mas só a minha objectiva o alcança, porque nós continuamos sobre cinzas.

 

 

O muro do lado de cá está escondido pelo cabeço à nossa esquerda e nós temos de descer isto tudo até nos aproximarmos do buraco do Fojo.

 

 

Nós vamos para esquerda, mas eu aponto a objectiva para a direita na descida rumo à Peneda.

 

 

Saltando de rocha em rocha, com passada larga,  descemos um monte que bem nos vai custar a subir depois. Mas nós já sabemos disso. Não vamps ser enganados!

 

 

Sobre rochas e sobre cinzas, num trajecto bem difícil até em circunstâncias normais. E vamos  ter de subir tudo, outra vez. Quem corre por gosto não cansa. Toniflex foi a minha sorte, indicada pelo avô do Tomás. Resultou! A minha coluna foi completamente recauxutada e mais parecia de um jovem de 20-30 anos.

 

 

Não sei porquê, mas acho que no nosso espírito, está a aprendizagem que fizemos com as cabras ao caminharmos nestes solos rochosos.

 

 

E ei-nos relativamente perto do buraco do Fojo do Lobo. Nós não, a objectiva sim! Mas não valia a pena descer mais, porque a descida é difícil e a subida nem se fala. Não vai haver piedade! Para mais, atendendo ao facto do meu companheiro de caminhada não ter vara e eu andar por ali de bengala. Foi a única coisa que tinha à mão! Não quis acordar ninguém em Adrão para pedir um cajado e a única pessoa a quem a podia pedir, porque estava acordada, o sogro do Luis, esqueceu-me completamente, mas tinha a bengala no carro e aproveitei-me dela. Uma maravilha e uma novidade nas minhas montanhas.

 

 

 A subida começou. Mas ainda não disse tudo! Andei nas minhas montanhas com uns sapatos que mais pareciam de toilete. Eles fartaram-se de ser testados, noutras serras e noutros montes e fiz-lhe uma promessa. Lembro-me sempre da ida de uma Mocho linda, que andava por aqui, até Las Vegas. Ela comprou os bilhetes para Las Vegas e a dona do meu Quico comprou-me uns Worldland. Acertou em cheio! E eu que prometi aos meus sapatos que os levaria comigo à Pedrada e vejam lá que, depois de esgaçar matos sem fim e agora carbonizados, rochas negras e arestadas, ainda hoje andaram a passear-me, em Sintra. Que belos sapatos!

 

 

O Fojo do Lobo já está a ficar para trás e nós vamos à procura do nosso monte mais alto e, por isso, mais pertinho do céu!

 

 

Como a subir convém sempre olhar para trás, para vermos o que andamos e não o que falta andar, vamos sempre apreciando as paisagens que ficam à nossa rectagauarda e, numa dessas olhadas, demos de caras com o Poulo de Adrão na serra da Peneda. Fica mesmo no primeiro monte no centro da foto. Era para ali que ia o gado de Adrão pois os de Soajo tinham outro Poulo mais acima. Tudo nas nossas serras era talhado por um direito imanado da caminhada das gentes em conluio com a caminhada dos séculos.

Tudo acaba! Até a transumância dos nossos gados da serra de Soajo para a serra da Peneda, acabou. Falarei disso mais tarde!

 

 

Descendo a Seida, rumo às Brandas das Aveleiras e de St. António, encontramos as serras em direcção de Monção, desfiguradas pelas torres que pretendem captar energia eólica. Vamos ver como a paisagística deste mundo vai ficar com estas transformações! Cá por mim, já está visto!

 

 

Agora de regresso à Pedrada, temos os montes do lado de Sistelo carbonizados pelo mesmo incêndio ...

 

 

 ... e quem vai de Sistelo para os Arcos de valdevez, mais torres para mais captação de energia eólica. Com o tempo, ainda veremos as torres envoltas em matos e a arderem também. Pelo caminho que isto leva, não me admiraria nada de ver senhores caminhando no seu mundo alcatifado de vermelho e outros a dizerem que não lhes compete cortar mato e, enquanto os anos forem passando, irão adiando até ao desfecho final. É assim que vai o nosso mundo!

 

 

Agora sim, vamos voltar à Fonte das Forcadas, por onde passaremos para subir à Pedrada. 

 

 

Não deixo contudo de olhar o Curral do Pai, local onde já assisti à maior luta de bois que alguma vez tinha imaginado. Imaginem esse local cheio de gado, vacas e bois e a disputa destes por uma vaca! Nem em filmes de ficção imaginariam tal! Eu assisti sentado e fui o único espectador humano, pois as vacas tmbém foram espectadoras comigo. Paravam de comer para olhar!

 

 

 As formigas procuram rearrumar a sua nova maneira de viver.

 

 

O Curral do Pai ficou todo esturricado! E, do lado de lá, na montanha de Sistelo vêm-se no fundo daquela corga, carvalhos queimados.

 

 

E os coelhos? Imaginem que vi um cheio de vida, mesmo no alto da Pedrada! O Luis ia pisando o bicho que estava a bater uma sorna entre uma pedra e uma moita pequenas, isoladas, mesmo pertinho do marco geodésico.

 

 

O arco da incerteza. Imaginem que me passou pela cabeça que tinham montado aqui uma ratoeira para apanhar algum bicho. Afinal não era! Era uma vara de urze encurvada tanto quanto pode. Talvez por acção do incêndio! 

 

 

Por causa da dita hipotética ratoeira, o Luis foi dar com a toca de uma raposa, debaixo da urze onde nasce a Fonte das Forcadas. Era só sair da toca e beber a melhor água do mundo! Ainda colocamos a hipótese de se tratar da toca (covil) de uma loba. O esconderijo era perfeito, pois naquele local já há anos que ninguém bebe água e portanto, limitar-se iam a espreitar se havia fonte e como tudo estava destruído, seguiam. Era assim que eu fazia há anos.

 

 

Poderia caber lá uma loba com os seus lobinhos, pois o local da entrada era bem largo e ainda tinha restos de ervas secas, que devido à terra escaparam de arder. Raposa ou lobo não interessa. O animal que estava por ali, terá fugido para bem longe.

 

 

As raizes das urzes ficaram completamete esturricadas.

 

 

Mas a nossa velha fonte ainda existe. Lá está a água! Será que ainda um dia beberei naquela fonte? Acho que só se levar uma enchada e for eu a refazê-la. Quem sabe? 

 

 

A verdade é que na Corga ds Forcadas ainda corre água, mas também é verdade que o lobo já não se poderá lá esconder por muito tempo.

 

 

 Acesso mais fàcil das gentes de Rouças à Seida e vice-versa, para as suas brandas de Gorbelas e Junqueira.

 

 

Saímos da Fonte das Forcadas e iniciamos a subida à Pedrada com a Corga da Vagem à esquerda. 

 

 

Aqui haviam muitas urzes mas à medida que nos aproximávamos da Pedrada haviam zonas sem matos ou matos muito curtos que não arderam por já terem ardido antes. Sempre houve queimadas na nossa serra, mas nunca como esta!

 

 

Mais uma olhada ao início do rio Ramiscal. As águas das Forcadas torcem à esquerda e dirigem-se para o Ramiscal.

 

 

A mata do rio Ramiscal seria uma das mais velhas matas de carvalhos deste belo cantinho lusitano. Nos vales incrustados das montanhas, tal como na Brusca, também haviam carvalhos. Entre o monte de lá e o de cá, fica uma garganta que já atravessei em tempos. Até por baixo dos troncos das giestas, rastejando, rente ao solo,  tive de passar. Nunca mais esqueci esse dia. Foi uma certeza, então, aquela lenga-lenga de «quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos»!

 

 

 Mais uma lage de Nossa Senhora. Acho graça!

 

 

Do lado direito, no centro da foto, vê-se a ponta do muro do Fojo do Lobo do lado de cá, que vai até ao buraco. Aqui enfrentei eu, com 12 anos, por duas vezes, um lobo (pensava eu), mas era uma loba grávida. À primeira vez, ainda estava só, achei que ela ia saltar por cima de mim, mas voltou para trás. Da segunda, talvez salta-se se não fosse o tiro do canhangulo de carregar pela boca do Zé Ribeiro. Vi o lombo da bicha arrepiar-se todo, ficando com os pelos esticados como arames, devido à acção dos bocadinhos de ferro de um pote velho. Aqueles potes da sopa. Se fosse hoje, tinha-a deixado fugir para a Brusca que nunca mais a apanhavam. Essa loba foi meu pai que a matou, nesse dia. 

 

 

Na Seida, no meio dessa foto correm riachos de água que se dirigem para o rio Vez. Haviam noutros tempos, por lá, muitas trutas. Hoje não sei. 

 

 

A Lage de Nossa Senhora vista de cima, do lado da Pedrada. Aqui também não havia mato para arder.

 

 

E eis-nos no delicioso monte a que chamamos Pedrada, o pico mais alto da serra de Soajo a que  muitos nabos, do Norte e arredores, já chamam Peneda. Há malta que nasce apenas para deturpar as coisas. Não sabem fazer mais nada!

 

 

 Agora o marco geodésico, com uma vassoura, em cima, mais pertinho ... Como raio foi parar ali uma vassoura? Eu levei uma bengala. Será que alguém, antes, levou uma vassoura a servir de cajado?

 

 

A torre que lá tinham erguido caída, mas ... 

 

 

... ao lado do marco geodésico, os meus amigos tatuzinhos (os bichinhos de conta), e alguns escaravelhos. 

 

 

 O Luis saltou logo para cima do marco geodésico e, daqui ...

 

 

 ... abraçou o mundo.

Este é o nosso Evereste, o marco da nossa existência, da nossa alegria. O centro do nosso mundo.

 

 

Agora vamos ver como fazemos a descida, mas antes de a iniciar, esta bela borboleta, Macho Machon, deseja-me boa viagem e que um dia regresse para ver esvoaçar na mesma ou com melhor esperança, a sua prole. Vamos descer da Pedrada pela parte detrás. Vamos ver as pedras que a filha de um rei ali mandou colocar para fazer um palácio! Nessa altura eu deveria andar por outros azimutes! Mas é uma lenda gira para explicar as tramas que a Natureza tece.

 

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 20:36