Recordar o passado, caminhando na Naia.

Quase sempre que me desloco ao Alto da Pedrada, sigo os trilhos iniciais desta caminhada. Gosto de me dirigir ao Alto da Portela e ver a Senhora da Peneda, lá longe e bem em frente do meu nariz. Nós temos um pacto. Dizermos olá, mesmo que seja de longe. Eu sei que Ela está lá e Ela sabe que, naquele momento, eu estou a passar ali. Observá-La do Alto da Portela, abraçando com a minha vista todo aquele vale, até Ela, é de facto uma das minhas maravilhas. Por isso, quer vá até lá, quer não vá, gosto de fazer assim e junto do Cruzeiro da Portela, sossegado, olhar, sem pressas, a Senhora da Peneda.

Por isso, muitas dessas vezes, eu não vejo os cortelhos da Naia nem bebo água na sua fonte. Eu passo pelo lado contrário à fonte, direito ao Muranho e, no regresso, quase sempre faço o mesmo. Mas desta vez, eu não ia sair de lá sem passar pela parte da Naia que me levaria à sua nascente e ver os seus velhos espaços murados e os seus cortelhos.

Por isso, ao descermos pelo Alto da Derrilheira, deixando o Muranho pela esquerda, íamos obter três belos resultados. Descíamos com os olhos sempre postos nos montes de Bordença,  na Assureira e na zona da Naia que desejávamos - a nossa fonte.

 

 

Para além disso iriamos passar pela nascente do rio de Adrão, ver o Alto da Derrilheira de baixo para cima, bem juntinho aos seus fraguedos e deslocar-nos-íamos até ao cimo da Corga da Naia. Eis o Luis a observá-la despida de muitas das suas belezas naturais, devido ao incêndio.

 

 

Ela aí vai passeando ao sol de Agosto sem, provàvelmente, a companhia de muitos dos animais que, em tempos, animaram, na sua bela caminhada, a minha querida gotinha - a Sonhadora.

 

 

No Inverno, na força das suas águas, a Corga da Naia torna-se diluviana. Ela inicia a sua limpeza e varre tudo até ao rio Lima e, no Verão, as suas águas mantêm-se limpas de toda a sujidade.

 

 

Passada a Corga da Naia e olhando para trás, cravamos os olhos na Derrilheira, nos Surreiros e nas falhas sobre as quais vão escorregando o Muranho, a sua nascente e os seus Cortelhos. É um trabalho de milénios, mas olhando bem as fotos tiradas na nossa caminhada pela Naia em direcção ao Murnaho notamos bem como aquela encosta tem descido sobre essas falhas.

 

 

Mais uma olhada sobre a Corga da Naia e o esturrico da grande queimada. É pena é que estes incêndios não sirvam para esturricar também, muitas das mentes ociosas e incapacitantes deste país.

 

 

Aqui, mais nascentes de outras gotinhas, velhas companheiras da Sonhadora. Podemos ver os lamaçais feito pelo caminhar dos gados para beberem água. Essas gotinhas vão aos trombalhões, encosta abaixo, até conseguirem alcançar a Corga da Naia, lá no fundo.

 

 

A minha objectiva já tropeçou nas ruínas dos velhos cortelhos da Naia. 

 

 

E, serenamente, caminha sobre eles. 

 

 

Mas não deixamos de olhar para trás! 

 

 

A Fonte a Naia!

Agora sim! Agora que chegamos, posso dizer-vos que há muitos anos que não bebia água nesta fonte! Relativamente perto desta fonte, a caminho da Ferrada, dancei eu a dança da cobra. Uma dança séria levada a cabo no silêncio da música. Eu com a Cuca ao colo, pois tinha-lhe prometido que a levaria à Pedrada, ao colo, a única música que ouvia era a cobra à chicotada às minhas pernas e eu a subir e a descer na vertical com aquela cobra verde a obrigar-me a uma dança que, nem ela nem eu, queriamos. Mas nessa altura eu dançava bem!

A Cuca era uma Caniche branquinha, a nossa linda menina, que ficou coxa depois de uma grande caminhada num calorento dia de Julho, depois de meter as patas na água gelada. Ao vê-la coxa, eu prometi-lhe que a levaria à Pedrada e cumpri.

 

 

Nunca me tinha servido de um copo para beber água nesta fonte! Alguma vez teria de ser a primeira.

 

 

E se eu desse um salto para dentro desta  bela fontinha? O fotógrafo ainda foi pior do que eu! Perdeu a beleza da fonte esperançado de me ver cair! Mas eu não gosto nada de quedas.

 

 

O Luis e os monumentos dos nossos avós! 

 

 

Eis como eles ficam de encontro à Derrilheira.

 

 

Mais uma forcinha e tinham construido, aqui, uma velha e bela cidade!

 

 

Esperança já há!  Este feto também se quis apressar, só para dizer "olá! ao Ventor!

 

 

Mais nascentes, para correr para a Corga da Naia. 

 

 

Elas aí vão, rumo a Oeste! 

 

 

Quando era miúdo, sempre olhei esta pedra com um enorme respeito. Hoje faz-me lembrar uma mãe gorila com o seu filhote nos braços.

 

 

Mais uma olhada para trás, com uma das nascentes aqui no fundo e, no meio da foto, as fracturas que colocam o Muranho sobre rolamentos, por cima, a plataforma do Muranho e, mais em cima, a serrinha.

 

 

Mais um, entre muitos, que tombou às garras de criminosos.

 

 

Mas este não, este diz que precisa de sobreviver!  «O meu corpo vai cair sobre cinzas, Ventor, mas os meus ovos ficarão esperando, melhores dias». Ele, tal como eu, acreditamos que melhores dias virão. Para o ano, se o Senhor da Esfera o permitir, eu caminharei ao lado dos seus descendentes.

 

 

Mais uma amostra dos nossos montes cimeiros. Vocês já estáo pelos cabelos, mas eu nunca me canso de olhá-los! E sei de muita gente que não se cansa. Sei também do pedido do Emílio: "Eu vou partir para a América mas, para nós, coloca muitas fotos"! São, no mínimo, três os Emílios que, a meu lado, vão partilhando da minha Caminhada!

 

 

Agora, continuemos a olhar em frente. Quando olho os meus montes lá de baixo, eu vejo o horizonte neste local onde passamos, na base desta foto.

 

 

Estamos no mesmo local, no horizonte do cimo da Corga Grande na foto que identifica as minhas Montanhas Lindas!

 

 

Na metade de cima direita da foto, o Penedo do Osso. 

 

 

Agora, desviando-nos para a esquerda, no centro desta foto, no meio dos fetos, lá está o carro do Luis, que o levou até ali, cheio de ansiedade, por ter perdido as festas da Barca sem saber se nós tínhamos ou não, metido os pés a caminho. Pois como podem imaginar, apesar de eu o ter feito tantas vezes, não é agradável andar só pelas nossas Montahas Lindas!

Mas a descida ainda não acabou. Ainda vamos parar no Cruzeiro da Portela, frente à Senhora da Peneda, onde encontramos uma viatura dos sapadores da Gavieira a quem eu acabei por perguntar se tanto homem não foram capazes de evitar que as nossas montanhas ardessem! Encolheram os ombros e deram-me assim a resposta.

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 22:46