... a mais bela "penuda" das minhas Montanha Lindas!

 

Pois é amigos. É uma tristeza quando somos atingidos pela mais pura das verdades! Senão vejam:

Em Agosto de 2006, depois de ter conhecimento daquele terrível incêndio que fustigou por muitos anos, as Minhas Montanhas Lindas, senti um impulso enorme para ver, in loco, todos os estragos que ele causou. Reparei que foi muito pior do que aquilo que a informação fez correr. As zonas da serrania onde quase ninguém vai, estavam literalmente destruídas e não vale a pena voltar a repetir aqui, os estragos levados a cabo no aspecto ambiental.

 

Mas eu não andei só a verificar os estragos do incêndio, também andei a ver as maravilhas que os séculos permitiram que chegassem até nós, tal como, por ex: o Mosteiro de Ermelo! Um dia falarei aqui do Mosteiro de Ermelo. Hoje vou falar-vos, mais uma vez, duma das mais belas companheiras, penudas, das minhas caminhadas - a Águia Real!

 

Na minha visita ao Mosteriro de Ermelo, em 24 de Agosto de 2006, subi e rodei por trás do belo Monte Gião. Tinha visto que o rio Lima, em mais um troço da sua caminhada, fora engolido por mais uma barragem que creio ter o nome de Touvedo. Nesse troço, junto ao Mosteiro de Ermelo, corriam, noutros tempos, as águas irrequietas do Lima, cantarolando de penedo em penedo laudas às belezas que das encostas as olhavam,

 

Depois de apreciar aquela bela obra do mosteiro e de ver a base das margens do Lima, (onde a D. Teresa também apreciava os encantos da paisagem), afogadas nas águas da barragem, comecei a subir as fraldas da montanha que nos transporta a vista encosta acima, até ao pico mais alto das proximidades - o Monte Gião.

Quando fiquei à vista daquele monte "sagrado", topei, no seu horizonte, com a Águia Real.

 

 

Imagem, retirada da Wikipédia, representante da Águia Real

 

Sinto-me sempre deslumbrado com a impunência da águia real voando e tentando enxergar as encostas das montanhas. Já há muitos anos que não via, tão nitidamente, aquela bela amiga, deliciada a fazer acrobacias para mim!

Parei o carro, numa subida íngreme, para apanhar a máquina e tentar fotografá-la enquanto ela descia a encosta da montanha em minha direcção.

De repente, girou para a esquerda e dirigiu-se para o Mesio, enquanto eu,  insuflado de grande esperança, segurava a máquina convencido de que ela se arrependesse da direcção tomada e regressasse para um diálogo comigo. Mas nunca mais a vi!

 

Eu sei como seria esse diálogo, mas senti que ela teria vergonha de mim e sei que se a conversa se realizasse, seria mais ou menos assim:

 

 

Uma Águia Real, vivendo só, aprisionada no Zoo de Lisboa

 

«Perdi os anos, Ventor! Perdi os anos a esperar-te, mas tu poucas vezes apareceste para voltarmos a rever, juntos, as nossas Montanhas Lindas. Por isso, não quero voltar às conversas de outros tempos. Não esqueço que és humano e, como tal, pertences à pior das espécies que povoam o planeta zul e, que tudo faz, consciente ou inconscientemente, para destruir a nossa vida, a vida de todos os animais que sempre viveram nestes belos montes.

 

Vivo só, Ventor!

Já não tenho família. Todos os meus morreram! Apenas fiquei eu e o meu ninho, mas gora, nem ninho tenho. O fogo levou-o!

Fizeram com que grande parte do meu mundo fosse icenerado e nem o meu ninho ficou. Agora estou velha e, com a destruição provocada por este incêndio, nas minhas fontes de vida, já pouco durarei.

 

Eu poisava no meu ninho e ficava, por ali, horas a pensar na família que perdi. O meu companheiro deixou-me para sempre e os meus filhos morreram também, ou foram mortos por gente sem escrúpolos. Só, do meu ninho, espreitava o horizonte a ver se algum dos meus chegava. Mas nunca mais chegaram! Os anos passavam e eu verifiquei que fiquei só para sempre e, um dia destes, tombarei no chão das nossas montanhas, sem ter nenhum dos meus a chorar-me para me.

 

Passarei o resto da minha vida, só. Morrerei só, Ventor!

 

Se um dia voltares a pisar o horizonte das nossas belas montanhas, olharás em redor, verás cabeços e vales profundos e pensarás em qual desses locais eu terei tombado para sempre.

O meu corpo será consumido por bichos que, como eu, sobreviveram à catástrofe, mas talvez alguma das minhas belas penas chegue até ti levada pelo vento.

Então tu chorarás só, naquelas que deixarão de ser as minhas montanhas mas que, ainda por algum tempo, continuarão a ser as tuas, com a graça do Senhor da Esfera.

 

O nosso amigo Apolo afagará o teu rosto sacudido por uma brisa gelada que circulará em teu redor, enquanto tu continuarás a perscrutar o horizontes tentando ouvir as nossas belas canções trazidas pelo vento e procurando a tua amiga de sempre. A tua Águia Real»!

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 16:18