Vejam aqui o slideshou da nossa caminhada no Vale do Deva, desde Altamira a Camaleño

 

Depois de algum diálogo com espíritos passados, em redor de La Cueva, em Altamira, reiniciamos a nossa caminhada com um objectivo bem determinado: S. Vicente de La Barquera. Desde Santillana del Mar, entramos na autovia del Cantábrico e rumamos a essa estância turística. Demos uma volta por ali, usando a pala e regressamos à autovia del Cantábrico dirindo-nos alguns kms para West. Depoiis entramos na carretera N-621, rumo a sul, rodando no Massiço Oriental dos Picos. Por ali, nos vales dos Picos e seus arredores, lá mais para o fim da tarde, recomeçaríamos a procura de local aprazível onde fizéssemos escorrer o cansaço de um dia cheio de estradas.

 

 

Rumando contra o tempo no desfiladeiro cársico do rio Deva

 

Após reiniciarmos a viagem, não tardou muito, começamos a penetrar num desfiladeiro que, através dos milénios, foi aberto a escopro pelo rio Deva que nasce nos montes de Fuente Dé, nos Picos da Europa e vai jorrando, umas vezes mais lento, outras vezes mais rápido, por 64 kms, até se abrir no Mar Cantábrico, numa ria a que chamam Tina Mayor.

 

Antes de Potes, rumando a norte, o rio abre o grande desfiladeirro cársico de La Hermida, com cerca de 20 Kms e se torna um refúgio dos abutres. Dentro desse desfiladeiro, fica anichada a aldeia de La Hermida, entre aqueles paredões cársicos que, de Outubro a Março, me disseram, não recebe um raio de sol!

Depois o rio Deva entra nas Astúrias e recebe, da sua esquerda, o rio Cares que, sempre na brincadeira, desce das belas montanhas de Covadonga, esculpindo tudo à sua passagem, abrindo aquele tremendo desfiladeiro de Cares.

 

Mas os rios contam-nos histórias e, essas suas histórias, até podem ser interessantes, tal como a história do Deva.

O Deva nasce nos belos montes de Fuente Dé e atravessa a comarca de Liébana, uma terra pequena com algumas centenas de habitantes mas que partilha do seu espírito religioso com Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela, devido à sua remota localização entre as Montanhas Cantábricas.

 

 

Potes, as belezas de uma localidade cantábrica

 

Como nos apercebemos do que vemos e do que a história nos conta, ficamos a saber que o vale do rio Deva foi sempre uma zona de refúgio entre as montanhas e foco de resistência, primeiro contra a invasão dos romanos e, mais tarde, contra a invasão dos muçulmanos. E ficamos a saber que quase todos os topónimos da Comarca de Liébana, estão ligados à história ou à lenda.

 

 

Potes, uma igreja diferente das nossas

 

Pelágio terá nascido na aldeia de Cosgaya, entre Camaleño e Fuente Dé e, também terá sido aqui, em Camaleño,  que derrotou pela primeira vez, as hostes muçulmanas, durante as primeiras escaramuças, por ali,  entre cristãos e mouros invasores e, também foi ali, num local chamado Planos, que uma avalanche terá sepultado os árabes que tinham fugido da Batalha de Covadonga em (c.718).

O porta-estandarte de Pelágio, seria um moço de Mosgroviejo, bem perto de Camaleño. E o rei Favila, filho e sucessor de Pelágio, terá sido morto por um urso, em Las Ilces, entre os locais de Cosgaya e Fuente Dé, no meio de uma floresta de faias.

 

O Mosteiro de Santo Toríbio é a jóia do vale do Deva no município de Camaleño e, para que se saiba, foi mandado construir por Afonso I que sucedeu ao rei Favila.

O então Bispo de Palência, Santo Toríbio, foi cristianizar a comarca de Liébana e que, desde a montanha Viorna lançou a sua bengala até ao vale para decidir o lugar onde levantar um templo. Um boi e um urso acompanhavam o Bispo e convencidos por aquele convívio milagroso, o povo de Liébana ofereceu o seu trabalho ao bispo para a construção daquele mosteiro em Camaleño.

 

 

Camaleño, um hotel com flores à chegada

 

Algum tempo depois, chegaram ao mosteiro uns caminhantes que transportavam, desde Astorga, o Lignum Crucis, um fragmento da cruz de Cristo, cuja madeira parece de um cipestre da Palestina com a data dos tempos de Crisro. Essa relíquia que já estaria há 200 anos em Astorga e tinha sido trazida, da Terra Santa, por outro bispo com o mesmo nome de Santo Toríbio, e com medo que os muçulmanos se apoderassem dessa relíquia, os de Astorga decidiram transladá-la para o vale inexpugnável de Liébana.

Foi assim que Calameño se tornou num quarto santo lugar da Cristandade.

 

Em 1512, o Papa Júlio II, declarou o Ano Santo Libaniego (ano em que a festividade de Santo Toríbio, 16 de Abril cai ao domingo e concedeu o Jubileu (o perdão de todos os pecados) àqueles que nesse ano peregrinem até Camaleño, atravessam a Porta do Perdão do mosteiro de Santo Toríbio e veneram o fragmento da Santa Cruz, incrustado, desde o Séc. XVI, numa cruz de prata dourada.

 

Mas o vale do Deva, na Comarca, oferece outros atractivos - o turismo. Desde o grande mosteiro de Santo Toríbio, os casarões de Cosgaya, os celeiros de Espinama, junto a Fuente Dé, a torre medieval de Mogroviejo, as escursões pelos Picos da Europa, bem como as belezas que a natureza nos oferece nos assombrosos bosques das encostas do rio Deva.

Esta comarca de Liébana é um belo sítio, uma espécie de "ilha" seca com muito sol no meio das lindas montanhas atlânticas, com invernos suaves, verões secos e belos outonos com bosques de cores multifacetadas.

 

A azinheira, o sobreiro, as faias, os castanheiros, os teixos, os amieiros, os azevinhos, os choupos, as avelaneiras, os freixos, ... mostram-nos o verde que nos maravilha durante o verão.

 

 

Calameño, um hotel com um banquinho que se entrega ao nosso descanso

 

A fauna é também abundante: sobrevivem o urso, o trataz, a águia-real, espreitam os lobos, todos em vias de extinção.

Abundam javalis, veados, corsas, camurças, ...

Cultiva-se o trigo, a cevada, o centeio e a vinha ...

As carnes são boas, as trutas, os salmões, os enchidos artesanais, hortaliças, frutas, cogumelos, o cozido da região, queijos com denominação de origem ... dizem eles, é tudo bom.

 

Enfim! A nossa caminhada no vale do Deva, contrariando a vontade do rio, ele dirigindo-se para norte e nós para sul, presenteou-nos com maravilhas ainda disponíveis neste nosso tempo.

Admirando a bela localidade turística de Potes, e seguindo por Camaleño, rumo a Fuente Dé, apreciando sempre todos aqueles picos e florestas maravilhosas, foi para mim um dia para não esquecer. Depois, no regresso, de Fuente Dé, encontramos um local bem lindo em Calameño, onde, num belo hotel de montanha, acabamos por pernoitar. Entregues as malas à guarda do hotel, lá voltamos a Potes, onde, com toda a calma do mundo, nos banqueteamos com um belíssimo jantar.

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 21:55