Porque partir? Ou melhor, porquê fugir? Partir ou fugir, é tudo o que resta à juventude portuguesa?

 

Um dia, eu ouvi a palavra "emigração". Há três histórias que eu nunca vou esquecer!

 

Um dia, a minha tia Joaquina, pediu-me (tinha eu 10-12 anos) para levar um saco de dinheiro a Paradela e entrega-lo àqueles que, na realidade, seriam os seus donos. O meu tio Ramilo, tinha ido para França, a "salto".

 

Andou fugido pelas terras de Espanha. Foi apanhado pela Guarda Civil e, recambiado para Portugal.

Voltou à carga! Não tinha dinheiro, na altura, e pediu-o, em Paradela, a quem o podia fornecer. À segunda foi de vez! Um dia redireccionou a sua vida para a América. Sempre a América!

 

O meu primo Manel, andou, como eu, embora mais cedo, por Lisboa. Trabalhou como podia e, numa determinada altura da sua vida, antes do serviço militar, decidiu emigrar para França. Com o tempo, também se redireccionou para a América.

 

O meu amigo e primo (por afinidade) Carrasco, como eu ouvi da sua boca, quando era pequeno, também teve muitos problemas na sua emigração para França e ou tentativa para a América.

 

Toda a gente de Adrão, dos meus tempos de puto, teve de passar as passas do Algarve, nas suas tentativas de fuga para a estranja.

 

O meu primo Manel, além de emigrante, era refractário. Esquivou-se ao serviço militar. Não. Não pensem os "heróis" deste país que ele foi um "herói"! Esses heróis com um estatuto muito especial como muitos que apareceram na defesa da revolução dos cravos. Se calhar, no meu tempo, ele teria ido na mesma, e aí, sim! Talvez reclama-se o estatuto de heroicidade propalado a partir do 25 de Abril.

Mas, a única coisa que eu sei do seu "estatuto" de herói, é que, um dia, em terras de França, e lembrando-se que não podia regressar a Portugal, devido à sua situação militar e ainda antes das guerras de África, ele teve saudades da mãe.

 

Partindo de França, avançou Espanha dentro, até uma terra espanhola, chamada Olelas, a terra mais próximo da Várzea e de Adrão. De Olelas, alguém que muito queria à nossa família, veio junto ao rio pedir, à primeira pessoa que encontrasse, a ajuda da nossa tia Florinda, residente na Várzea, para arranjar maneira de o ajudar do lado de cá.

O rio, nas vésperas de Natal, corria de monte a monte, rumo ao rio Lima, e ele, através de uma corda, arriscou a vida, apenas e só, para vir passar o Natal com a sua mãe e com a sua família. Eu era puto, mas recordo-me das conversas que nos diziam que, o Salto, aquele terrível local de passagem da Várzea para Olelas, tinha sido dado pelo ar. Ainda hoje acredito que, nada teria sido possível, sem o silêncio da Guarda Fiscal do, então, Posto da Várzea.

 

São pequenas historietas que não vou desenvolver, porque tanta gente terá conhecimento de muitas outras similares.

Mas, com o tempo, apareceram os heróis!

Heróis daqui, heróis dali, que andaram a comer os vinténs dos papás por terras de França e outros que até tiveram grandes amigos como "Monsier Miterrand" e outros.

Tudo isto, malta que nunca soube o que era trabalhar. Viviam à custa da família e de subterfúgios, nas suas caminhadas dos tempos.

 

Mas isso é outra história!

 

A que me interessa, realmente, de momento, é que, depois de tanto deleite, de tanta promessa, de tantos engulhos, com a Revolução das Promessas, os jovens portugueses, 50 anos depois dessas historinhas, 36 anos depois de Abril, aquele Abril da Esperança, continuam a fugir desta terra. Deste país que poderia ser lindo mas que, atendendo ao que assistimos, nunca o será!

 

Cada um continua a fugir por onde pode. Leste, Oeste, Sul, Norte e pontos intermédios, os portugueses continuam a fugir utilizando os carreiros a que nos habituamos a chamar os "Carreiros dos Emigrantes ou os Carreiros da Esperança".

Tudo isto, na cara de homens sem escrúpulos, que têm o despudor de vir para as Televisões, afirmar alto e bom som, que tudo está bem, que tudo é uma maravilha, hoje, e amanhã, que isto está mau, as desgraças são de outros e que, o nosso mal, é culpa dos outros. Não fossem os bancos de Investimento Estranjeiros e, a amabilidade dos nossos bancos em levarem as massas a quem as tem, e tudo seria uma maravilha!

 

Antigamente, era por causa dos fascistas, da sua política anti-social ... etç.

 

Hoje, digo eu, é por causa de gentes que não passam de reles políticos ou, então, pertencem a um qualquer império do vampiros porque nos sugam o sangue, que os portugueses continuam a fugir para fora deste país, segundo estatísticas espalhadas por aí, 70.000 a 75.000 portugueses por ano!

Mas será este, mesmo, o País que merecemos?

Antigamente a culpa era dos fascistas e hoje, 36 anos depois? Tenho ou não tenho razão?

A revolução dos cravos (coitada da flor!), a revolução das promessas, foi apenas uma miragem imposta ao povo portugês, apenas e só, por sonhadores ou oportunistas irresponsáveis. É tudo o que tenho visto nestes últimos 36 anos.

Oportunismos de vários interesses partidários, tudo em nome do POVO!! E também se nota o xico-espertismo daqueles que se movimentam nos corredores da política e nos corredores económicos, movimentando as alavancagens dos seus interesses em nome de objectivos de produção que não passam da camuflagem dos ladrões.

Dói-me dizer isto, mas é, de facto, a nossa verdadeira realidade.

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 22:26