A oliveira é uma árvore. Mas a oliveira não é uma árvore qualquer. É uma árvore de madeira dura e fornece-nos as azeitonas e o azeite. Já há milhares de anos que os homens do neolítico ou do final do neolítico sabiam extrair o seu óleo - o azeite - que sabiam aplicar na alimentação, na combustão ou como unguento. As velhas candeias de azeite aparecem em escavações arqueológicas de velhos tempos e velhos templos, tal como no palácio de Cnossos, em Creta.

 

Falar da oliveira, seria falarmos, também, de várias civilizações, antes da era cristã e também durante a era cristã. Talvez uma das primeiras civilizações onde se prosperou com o cultivo da oliveira e o comércio dos seus derivados, azeitonas e azeite, tenha sido a civilização minóica. Mas apesar das oliveiras serem de origem asiática, sul do mar Cáspio, Pérsia, elas terão estado sempre presentes em redor do mar Mediterrâneo, na vida dos Fenícios, dos Hebreus, dos Cartagineses, dos Romanos, dos Gregos, ... chegando até aos nossos dias, desempenhando um papel primordial nas nossas civilizações mais modernas, como a espanhola e a portuguesa.

 

 

 Uma oliveira com muitos séculos, milénios (?) ...

 

Mas, como em tudo, para além das azeitonas e dos azeites, como seria se vivêssemos nos tempos em que as árvores falassem?! Como seria se as oliveiras nos contassem as suas histórias? Recordo-me, quando era pequenino, os velhotes da minha terra, onde quase ninguém sabia ler ou escrever e os que sabiam, saberiam muito mal, iniciarem as suas histórias assim: "era uma vez, nos tempos em que os animais falavam", ... "Era uma vez, nos tempos em que as árvores falavam", ...

Não sei como seria mas posso calcular como seria ouvir uma oliveira falar comigo!

 

Por isso, uns anos atrás, num dia solarengo, caminhava eu nos campos do Ribatejo, tentando encontrar uns mochos que me desafiaram para uma cantoria. Saí de uma estrada e entrei noutra de terra batida, uma espécie de picada africana, ladeada de campos floridos, por onde rodarão uma ou outra viatura, além de tractores. Por fim, vejo ao lado dessa estreita estrada, umas oliveiras mas eu só levava os olhos apontados aos pássaros e às flores, para além de ir observando a paisagem.

 

Por fim, observando umas sombras, lancei o meu olhar sobre as árvores que lhes davam origem. Verifiquei logo que se tratava de oliveiras isoladas, uma aqui outra ali e todas de troncos retorcidos mas, duas delas, eram realmente autênticos monumentos às oliveiras e aos homens que as podem observar.

 

 

Uma oliveira no Ribatejo

 

Nesse dia, durante essa caminhada, sentei-me à sombra desta oliveira.

Das reentrâncias do seu tronco, uma voz me disse: "estás sentado no mesmo local onde se sentou Dom Fuas Roupinho"! De certeza que não fomos só os dois, disse eu. "Não! Aqui tem-se sentado muita gente. Romanos, árabes visigodos, lusitanos, D. Fuas, tu e até ribatejanos". Pois, mas os ribatejanos estão na terra deles! "Sim, e até eles o conseguiram, porque esta oliveira resistiu aos milénios"!

 

Há pouco tempo, observei oliveiras extraordinariamente velhas, na Quinta do Lorido, para os lados do Bombarral e, há dias, na Quinta da Bacalhoa, em Azeitão. Estas quintas são propriedades do Joe Berardo. As oliveiras são, sem dúvida, autênticos monumentos das civilizações ditas mediterrânicas.

 

Há muitos anos, logo na sequência do 25 de Abril, estava sentado no escritório onde trabalhava e recebia um colega novo, que tinha saído da Força Aérea e tinha andado num helicóptero a fazer estudos para a implantação da então futura Barragem do Alqueva, no Alentejo. Perguntei-lhe qual a opinião dele sobre a hipotética barragem e ele depois de várias dissertações, disse-me: "olha Ventor, quanto a mim, a barragem já devia estar feita, já cheira mal tanta hesitação. Ou temos dinheiro e fazemo-la, ou não temos dinheiro e ficamos quietos. A mim, só me faz impressão alagar oliveiras com muitas centenas, até milhares de anos".

 

 

 Uma oliveira plantada pelos romanos em 300 A.C.

 

 

A placa escrita por alguém para quem esta oliveira falou

 

Depois apareceram empresas a quererem comprar as oliveiras para as voltar a transplantar nos seus locais para isso determinados. Só empresas e empresários com disponibilidade de capital podia meter mãos a essa obra. Foi o caso do Joe Berardo. E sabem que eu até comecei a simpatizar com o homem?!

 

Mas o Joe Berardo e seus assistentes, tentam, com as oliveiras do Alqueva e não só, tornar este mundo mais belo para cada um de nós. E foi por isso que, quando entrei, ali encontrei velhos amigos como Diana e Apolo que me contaram as histórias das oliveiras que eles viram crescer, por esse mundo fora bem como as histórias que eles foram ouvindo, vindas dos troncos retorcidos, sobre todos aqueles que pisaram a Península Ibérica e por entre elas caminharam, juntamente com os meus amigos Apolo e Diana.

 

 

 O cão guardador das oliveiras

 

Mas o Joe Berardo não se esqueceu de arranjar um cão, azul como o Ventor gosta, para guardar as suas oliveiras. Este cão é grande como o cão que tinha o meu amigo Nemrod, na Caldeia.

A minha amiga Diana tenta tirá-lo dali para levar nas suas caçadas mas ele não está disposto a deixar as oliveiras abandonadas. Tal como fazia o cão de Nemrod, também este não vai com Diana. Nesses tempos quando eu e Diana caminhávamos pelas margens do rio Eufrates, o cão do meu amigo Nemrod só ia com o dono e comigo.

Talvez um dia o Finitro me dê forças para acompanhar Diana em mais umas caçadas e, então, o cão azul poderá ser nosso companheiro de outras fabulosas caminhadas.

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

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publicado por Ventor às 23:47