Há alguns dias atrás, ao atravessar a passadeira para peões. à minha porta, com um saco de lixo na mão, senti uma terrível pancada na barriga da perna esquerda e quase anichei no meio da via.

Tacteei mas não caí, e a primeira coisa que fiz, mal me recompus, foi olhar o estrago que o tiro fez. Para mim, a primeira impressão é que tinha levado um tiro na perna.

 

Ao mesmo tempo que tentava não anichar no meio da rua, olhei em volta, passeio, janelas, portas e não vi ninguém de arma na mão ao mesmo tempo que me lembrei que não ouvi tiro nenhum. Mesmo assim, baixei os olhos para a barriga da perna e a perneira das calças estava intacta. Portanto, calças sem furo, pensei, não tinha mesmo havido tiro!

 

Os carros que à minha esquerda tinham parado para eu passar, ficaram estupefactos a olhar-me a contorcer-me de dores no meio da via, sem capacidade para me mover. Um rapaz de mota, chegou-se pelo meio dos carros até junto de mim e perguntou-me o que me aconteceu. Disse-lhe que pensei que tinha levado um tiro na perna, mas vistas as coisas, só poderia ter sido uma pedrada. Mostrei a barriga da perna e tinha uma negra, mas dentro dela só eu percebia a severidade da pancada.O meu músculo tinha-se desarticulado.

 

Saí do meio da rua e, quase de rastos, lá levei o saco do lixo. Uma vizinha da janela, disse ao marido que o amigo Ventor terá tido mais um grande problema de coluna! Vim para o meu carro, para levar a minha mulher á fisioterapia e logo que ela desceu e viu a minha máscara, queria desistir, mas eu lá a levei. Afinal a dor era na barriga da perna, mas o mecanismo funcionava! Ainda arranjava forças para grunhir de dor e fazer baixar a embraiagem!

 

Deixei-a na fisioterapia e como ela ia ter com uma amiga para beberem o café juntas, disse-lhe que vinha para casa fazer o meu tratamento. Cheguei a casa, gelo, pomada de silício, em vez de voltaren, mais gelo, e lá vou eu a coxear até ao carro. Andei assim alguns dias e ainda não passou, mas já pareço um lobo! Já caminhei na serra de Sintra a coxear, já controlei os meus pica-paus a coxear e, já passei tardes inteiras, dentro do carro a ver esvoaçar os gaios e de vez em quando, dou urros diabólicos devido ao meu tratamento, à lobo, sempre que me esqueço do meu dói-dói!

 

Sempre que tive problemas fiz tratamentos à lobo. Já torci pés e fui eu que os endireitei à lobo. Quando tirava a chapa em Lisboa os especialistas ficavam parvos quando eu lhes contava as minhas histórias. Uma vez torci um pé e, mesmo assim, para não molhar os ténis no rego de regar o milho, saltei do rego da água para cima do muro ao lado. A laje dançou e eu dancei com ela e só ouvia o pé a desfazer-se todo.

Por fim, em Lisboa, na Av. Da Liberdade, três dias depois, o médico que se chama (va) Corte Real, disse-me para nunca mais lá aparecer depois de fazer tanto estrago. E não! Fiz e continuo a fazer tratamentos à lobo! Mas nunca esqueçam: ouçam o que eu digo mas não liguem ao que eu faço. Apenas me tenho saído bem. Imagino quanto sofrem os lobos, meus companheiros de Caminhada, sem assistência hospitalar, sem médicos, sem enfermeiros, ... sem nada! Mas eles comem o barro e o barro está cheio de silício. Sem saberem tratam-se, e ... bem!

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

tags:
publicado por Ventor às 00:25