Hoje fui dar uma pequena caminhada de uma hora, num pequeno nicho deste mundo natural onde ainda posso apreciar algumas das belezas que podemos contemplar.

 

Há aquele pequeno ditado popular que nos diz que «aquele que o feio ama, é porque bonito lhe parece». E, então, eu até acho que isso é mesmo verdade. Senão vejam: «se eu consigo dar uma pequena passeata, com uma grande dor de cabeça provocada por uma grande gripe que me ia matando, e consigo perder algum do meu tempo a apreciar bichinhos aos quais ninguém liga, é porque, realmente, eles me parecem mesmo belos.

 

Até este!

 

 

O bicho do café

 

Chamam-lhe, popularmente, bicho do café! Se assim fossse, como em Portugal e na Europa não havia café, ou teriam de lhe chamar bicho da cevada ou, então, é mesmo bicho do café e, sendo assim, há séculos que faz parte, também, da chamada globalização tão apregoada nos fins do Séc. XX e no início deste Séc. XXI.

 

Mas do café ou não, este meríapode é um belo trepador e também gosta de subir até ao pico do seu Everest, de onde me gritou: «Ventor, Ventor, ... Ventor, estou no topo do mundo»!

 

Porquê fazer uma caminhada e aproveitar para visitar os meus belos amigos? Muito simples!

De manhã, ao levantar-me, sentei-me aqui frente à minha janela deste mundo cibernáutico e, ao olhar a outra janela real, verifiquei que caminhava, na sua superfície, uma formiga de asa. Acho piada àquelas asas grandes que mais me parecem um capote que tapa a formiga lembrando-lhe que estamos no Outono e o frio bate à porta. Mas, de facto, elas só nos pretendem avisar que chegaram as primeiras chuvas e, ao mesmo tempo, recordam ao Ventor o tempo das esfolhadas e das vindimas em anos de outonos chuvosos cujas águas escorriam pelas minhas montanhas lindas para lavá-las dos pós calorentos do Verão.

 

 

O gafanhoto que não disse ao "Mateus" onde estava

 

Nesses tempos, durante as esfolhadas, os folhatos húmidos que enrolam as espigas do milho, cheiravam a mofo e sempre que possível, aproveitava-se uma tarde soalheira para pôr as espigas ao sol e fazer os medeiros para que as chuvas outonais escorressem pelos milheirais ressequidos e não apodrecer a palha que iria, durante o inverno, ajudar a matar a fome aos gados.

 

Também me recordo que, nos tempos áureos das vindimas, quando as chuvas estorvavam as caminhadas das gentes na sua azáfama de sacar as uvas com o menor estragalhaço possivel, a passagem dos cestos cheios a caminho dos lagares, destilavam um perfume de mofo ou bafiento se prefrirem, mas tudo isto, dava beleza ao Outono. Hoje, sem essas chatices provocadas pelas cargas de águas das chuvas outonais de outrora e sem ver as preocupações estampadas nos rostos dos meus pais, pelos danos causados nos trabalhos das colheitas, senti esse mofo que vinha do solo, destilar perfumes impregnados pelo meio das ervas secas que, enquanto eu fotografava alguns dos meus amigos, me obrigavam a dar uma olhada de saudades pelo passado já longínquo.

 

 

Espigas esquisitas, mas não deixam de ser espigas

 

Mas, para me divertir, e me trazer até ao presente, vi esta coisa linda se atirar de um tufo de ervas e começar a fugir. Normalmente, eles não têm procedido assim tempestivamente.

«Mateus! Chega aqui. Que raio te fiz de mal para fugires de mim»?

E o Mateus, metendo travões na sua fuga aos zig-zags, respondeu-me assim:

"és muito aterrorizador! Fujo de tudo que tem duas patas"! E ...

"Mas, mas ... tu és o Ventor"!

 

 

O meu amigo Mateus

 

«Claro! Não tens vergonha de fugir de mim»?

"Oh, pá, desculpa! Desculpa lá!  Eu cresci, fiz-me um Mateus a ver-te caminhar por aqui, mas hoje, passou por aqui um gajo que me ia pisando e, agora, estava distraído a ver se me atirava àquela formiga e assustei-me. Nem te conheci.

Olha, lá vem ele com o cão! O cão cheirou-me e cumprimentou-me, mas aquele gajo se me vê, pisava-me. Ele não gosta de bichos, nem dos Mateus"!

 

«Mateus, talvez não seja assim»!

"Pois! talvez não, mas e se é? Não vês que há experiências que não se devem fazer! Nem pareces o Ventor! Se o gajo me pisa, não fico cá para te contar. O melhor é que ele nem me veja! Já viste, Ventor, que neste mundo a que chamas Planeta Azul, todos os animais vivem na desconfiança? Eu bem levanto as mãos ao Senhor da Esfera mas Ele nem me ouve"!

 

"As hstórias da minha espécie, que foram passando pelos meus ascendentes até chegarem a mim, dizem-me que tu gostavas de dizer a todos que encontravas: Mateus, endireita as mãos a Deus!  Eu hoje digo-te que não vale a pena! Estou farto de endireitar as mão a Deus para nada. O Senhor da Esfera não quer saber de nós"! E olha que ...

 

Lá deixei o Mateus a remoer as suas misérias e segui caminho, mas não deixei de olhar de soslaio e lá vi o grande cão voltar a cheirar o Mateus e o seu dono passar acelerado a seu, lado, de olhos enfiados no chão, como se tentasse procurar pepitas de ouro no meio de ervas secas.

 

 

O meu amigo Mateus está chateado com a vida, mas a vida é o melhor que temos neste mundo

 

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 20:06