A Senhora da Peneda é uma romaria no Norte de Portugal. É uma romaria que dura de 1 a 8 de Setembro de todos os anos. No dia 6 de Setembro era, e penso que ainda é, o apogeu da festa.

 

Ago,02 063.jpg

 

Nossa Senhora da Peneda

 

Faz hoje muitos anos que eu andei por lá, quando da minha Carta de Alforria! Há poucos anos ainda andei lá na romaria; há três anos, fui lá, no último dia, para fazer uma sardinhada e confraternizar com amigos perdidos no tempo mas não no coração e não tive onde poder fazer o braseiro, e bem! Era proibido e voltamos para fazer a sardinhada no Carvalho de Eixão.

 

 

O Carvalho de Eixão

 

Quando eu nasci, já aquele carvalho era grande e velho! À sua sombra descansavam os romeiros que convergiam para aquele caminho de Santiago! Mas há coisas que não me saem da cabeça! Antigamente, durante os meus anos de criança, penso que não haveria romaria no Norte de Portugal que tivesse mais fogo de artifício ou não, que a da Senhora da Peneda. Sabem quantos fogos (incêndios) houve? Se a memória não me falha, zero!

 

 

O Cruzeiro da Portela. Era aqui que se deitava os foguetes, frente à Senhora da Peneda

 

Quando eu era miúdo, os romeiros que se dirigiam à Peneda, passavam na minha aldeia, Adrão, carregados de canas de foguetes prontas a estoirar. Passavam mesmo naquilo que poderei chamar de Av. Principal e por debaixo da minha janela. Passavam de dia e de noite enroscados numa mézinha anti-cansaço e cheios de vontade de fazer fulia!

Tocavam as concertinas, ouviam-se as pandeiretas, era estridente a presença dos cavaquinhos e os ferrinhos, enferrujados ou não, ouviam-se também. Cantava-se e dançava-se a caminho da Senhora da Peneda! Claro que as pessoas eram jovens eram romeiros que levavam as suas músicas para a festa da Peneda, mas a festa fazia-se pelo caminho! Mesmo assim, quando lá chegavam, ainda apareciam com vontade para tocar, cantar e dançar!

 

 

Para trás tinha ficado Adrão e o Ventor, à espera dos estrondos que me iriam acordar logo de seguida

 

Só da minha aldeia, Adrão, à Peneda, são duas horas a andar bem e, para trás, antes de chegar à minha aldeia, a mais próxima, Soajo, ficava a hora e meia o que davam 3 horas e meia! Mas as pessoas caminhavam desde muito mais longe de todo o Concelho de Arcos de Valdevez e de mais longe. Como hoje os peregrinos se metem à estrada para chegarem a Fátima, assim era com os romeiros que iam até à Peneda.

Só que não havia estradas. Os caminhos eram entre as montanhas, de pedra em pedra, à biqueirada e não havia calçado que resistisse. No Cabaz das Merendas, para muitos rumeiros, tinha de caber sempre um par de calçado suplente. Eu, ao pegar no sono, era logo acordado por cantares ao desafio e pela sinfonia da música em que o som da concertina prevalecia e era assim todos os dias de 1 a 8 de Setembro. Quando um grupo de romeiros passava, logo despejava os seus fogos para cumprir as suas promessas na Portela, a montanha que fica entre Adrão e a Peneda.

Do lado de lá, para as bandas de Castro Laboreiro eram os que vinham do lado de Melgaço e Monção e mais os que vinham de Espanha a fazer os seus estoiros de artifício de noite e de dia. Hoje, não se vai a pé à Peneda a não ser que tenham de pagar alguma promessa. A estrada esventrou as montanhas, as concertinas e afins não se ouvem, as cantorias ao desafio, pelo caminho, acabaram e os fogos são proibidos. Sabem porquê?

 

 

Eram animais como este e outros que limpavam os montes

 

Hoje em Portugal não se trabalha! Os animais que roíam os matos, cabras, vacas, ovelhas, cavalos ... desapareceram, ou estão reduzidos a uma pequena amostragem, e os donos que os orientavam foram à procura de melhor vida ao mesmo tempo que partiram à conquista de mundos. Penso que, na Peneda, já não se canta nem se dança! Reza-se por melhores dias e para que Nossa Senhora nos mantenha, embora longe uns dos outros, unidos. As romarias eram festas e preces, hoja as romarias são só preces! E mesmo só para isso, vão de carro. Eu também já só vou de carro à Peneda. Se quiser ir a pé, terei de o fazer sózinho porque ninguém irá comigo!

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 21:35