Na nossa caminhada pelo Chiado a 11 de Julho, p.p., concluímos que o tempo foi pouco.

Vindo da Praça Camões, entrei na Igreja dos Italianos, a nossa Igreja do Loreto, do estilo Barroco tardio, pela porta da Rua da Misericórdia, conversei com o Senhor da Esfera e saí para o Largo Do Chiado, dando de caras com a Igreja da Encarnação (inaugurada em 1708, destruída pelo terramoto de 1755 e reconstruída, em 1785). Então, recordei-me das conversas que tive com os "sabidos" no decorrer dos anos, sobre esta bela zona de Lisboa, quando eles me falavam de que, por aqui, entre estas duas igrejas, passavam as muralhas de Lisboa, mandadas construir pelo Rei D. Fernando (séc. XIV) e, ficava, aí, a entrada de Lisboa, a porta das muralhas, conhecida como a porta de Santa Catarina.

 

 

Camões a observar o Largo do Chiado pelo local, entre as igrejas do Loreto, à sua esquerda e a igreja da Encarnação à direita, onde ficava a Porta de Santa Catarina

 

Dentro das portas de Lisboa, desta porta de Santa Catarina, ficava a bela cidade de Lisboa, a cidade fina, cheia de burguesia, de nobreza, da chamada gente de bem mas, fora das portas, do local onde hoje fica a Pç. Camões, para cima, ficava o Bairro Alto, já então, uma zona do chamado povo "ralé", de gente da boémia, por onde existiam tabernas e mulheres da vida (umas libertárias) que, então, ajudavam a animar o bulício de fora de portas, em volta da cidade amuralhada. Ainda hoje, a zona do Bairro Ato, continua a ser uma zona de folia. 

 

Junto à velha Igreja do Loreto (a tal Igreja dos italianos), uma devoção a Nossa Senhora do Loreto, trazida até Portugal pelos italianos, mercadores venezianos e genoveses, cerca de 1200 A.D., ficava uma das torres da porta e a outra torre ficava do lado oposto. Com o tempo, essas torres e muralhas foram sendo destruídas e a torre norte começou a ser destruída na reconstrução da nova Igreja do Loreto, em 1785, 30 anos depois de ter sido destruída pelo terramoto de 1755. Ainda hoje, se podem ver no Centro Comercial Chiado, uma amostra dessas muralhas de D. Fernando.

 

 

Pessoa e o Poeta Chiado, observam do local que já esteve dentro das Muralhas Fernandinas, o Camões do lado de lá da porta de Santa Catarina, o lado boémio

 

Pensando em tudo isso, comecei a ouvir algum alarido à minha esquerda. Ao olhar para o sítio de onde saía o alarido, vi, no meio daquela gente toda, uns sentados nas esplanadas, outros caminhando em todos os sentidos e outros ainda, a tentar observar o que se passava mas, na verdade, a única coisa que sobressaía, era o braço do poeta Chiado, um pouco levantado, a dar as boas-vindas ao Ventor que se aproximava.

 

"Pessoa! Pessoa!... Nandinho"! - gritava o poeta Chiado, o poeta António Ribeiro, nascido, em Évora, e que foi contemporâneo do grande Luís de Camões. Esta estátua foi levantada, em 1925, pela câmara de Lisboa, em homenagem a este mestre do sarcasmo, na mais nobre zona de Lisboa. Ele ficou conhecido como o poeta Chiado, por ter morado ali, pois toda aquela zona, se chamava Chiado (zona de chiadeira, barulhenta, bulício...) até que, no séc. XIX, deram o nome de Rua Garrett, em homenagem a esse grande escritor dessa colectânea poética - Folhas Caídas - e das Viagens na Minha Terra, deixando ficar, o Largo do Chiado.

 

 

O Poeta Chiado, tenta explicar ao Fernando Pessoa, como é belo dar alguns piropos às mulheres lindas, sejam elas estrangeiras ou nacionais

 

 - «O que foi pá»? Perguntou Pessoa. «Já estou farto de te ouvir de noite e de dia. Porque raio se lembraram de me colocar aqui? Eu sei que a culpa foi minha! Falei com um bicho-careta que gostava de ficar aqui às portas da Brasileira e da Havanesa, porque sempre seria melhor encontrar aqui os meus amigos de outros tempos, mesmo os que não foram do meu tempo porque, é aqui o ponto de encontro de todos aqueles que deixaram "mensagens" a Portugal. Mensagens que pouco valeram, mas deixaram! Nem à Mensagem do Grande Camões (Lusíadas e, não só), nem à minha grande "Mensagem" ligaram importância. isto até me parece um país de surdos e cegos. Nem ouvem, nem lêem»!

 

"Está bem, Nandinho! Já sei que agora, mas já é tarde, preferias ter ficado junto da tua velha porta ali atrás, frente ao teatro S. Carlos. Mas lá acabavas por ficar sem alma, pois morrias de solidão. Aqui, eu sei que estás bem vivo, animas a clientela destas montras todas e sempre vais esperando que o Eça, venha do seu cantinho, no Grémio Literário, beber a bica e comprar o charutinho para uns dedos de conversa.

E, quando eles andam por aí, procurando a salvação, sempre podes ir observando a minha técnica do piropo com estas mulheres lindas que por aqui passam, me ouvem, sorriem ou ficam carrancudas e até há algumas com esperança de me fazerem descer daqui à força mas, isso requeria muito trabalho e não vão nisso. É a minha safa"!

 

 

Fernando Pessoa, faz um gesto, com a mão, ao poeta Chiado, a tentar informá-lo que já está farto da conversa dele 

 

"Eu sei que tu te envergonhas com as minhas conversas sarcásticas e chegas a recear que eu volte para o Aljube. Tem calma!

Eu só insistia a chamar-te porque daqui de cima já vi que o Ventor caminha ao nosso encontro, depois de conversar com o Camões e podes crer que quando ele sair com aquela nova carroça puxada por muitos cavalos esquisitos, vai acabar por se meter com o Eça, ao subir a Rua do Alecrim. Dirá mal do bife do Entrecôte e continuará rumo à Amadora, depois de passear o seu malmequer pelo Chiado e nos dizer que continuam a sonhar com isto"!

 

«Está bem! Já sei que o Ventor se vai sentar à minha mesa e o seu malmequer também, mas tu chateias-me e eles não! Ainda meto uma cunha ao Ventor para ver se arranja uma mordaça para te tapar a boca».

"És um desmancha prazeres, Pessoa"!

A conversa daqueles dois acabou por se agudizar e eu acabei por debandar. Mas não sou capaz de passar no Chiado e não ligar àquele poeta Fernando Pessoa e àquele outro que nasceu em Évora e lhe deram o nome de António Ribeiro, depois conhecido como poeta Chiado.

 

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 01:12