Subir ao Alto da Pedrada, desde Adrão, rumo à Portela, Lameiras, Naia, Muranho, caminhando 9 horas sobre cinzas.

Trilhos? Por entre cada duas moitas das minhas Montanhas Lindas, há um trilho, esse sim, bem juntinho do céu.

Após uma primeira vista até aos horizontes visíveis das estradas do Mezio para Adrão e Paradela, do lado oposto à queimada, nada mais sabia além do que a vista alcançava. O que estava para lá do horizonte?

Houve que ir ver o que realmente se passava para lá dessa linha e em 24 de Agosto de 2006, três sortudos, decidimos atravessar para lá dela.

À primeira vista, tudo muito mal planeado, como sempre, seríamos 5 a caminhar rumo à Pedrada. Saí dos Arcos com o Jack, que tinha prometido ainda em França, ir comigo à Pedrada, tal como o fizera há 16 anos. Deitara-se às 4 horas da manhã e levantou-se às 6, quando eu estava a tomar o pequeno almoço. Quis levar o carro dele para não adormecer dos Arcos até Adrão. A caminho de Adrão, vimos nascer o sol nos picos da nossa serra.

Entrei em Adrão e fomos logo avisados que, dos cinco, dois tinham desistido e fomos à procura do 3º, o Luis, irmão do Joaquim Perricho que, noutros tempos, chamávamos "Pequeno", embora ele fosse da nossa altura. Era o pequeno, porque o primo dele era o Grande, exactamente por ser o mais velho. Indicaram-nos a casa onde estaria e veio o sogro à porta. «Tu és o Ventor»? Sou! «O Luis não está, pá, ficou na Barca, para a festa. Ele não me disse que ia à Pedrada»!

Resolvemos partir eu e o Jack que me perguntou qual o melhor sítio para deixar o carro. Eu disse que seria na Casa Abrigo da Coroa porque, subir à Pedrada, só teria interesse se caminhássemos o máximo. Deixamos o carro e partimos.

 

 

Quando passávamos na estrada, vi-mos o Alto da Derrilheira iluminado pelo meu amigo Apolo e apresentava-se lindo como se estivesse vestido da alvura branca de um rigoroso inverno cheio de neve, à moda antiga. Apolo iluminava as minhas lindas montanhas e reflectia-se sobre as cinzas.

 

 

O Alto da Derrilheira visto da Coroa, por cima do Poulo da Férrea. O Sol caminha montanhas abaixo e nós vamos caminhar montanhas acima.

 

 

Encostado o carro, só faltaram as "rainhas das montanhas" (como diz o filho do "Pequeno") dizerem-nos que não sabíamos para onde íamos. Elas tinham fugido de lá! O Inferno ainda lá estava, em cima. Uma das coisas mais belas pela minha vida fora, é ver as "rainhas das montanhas" deitadas entre os fetos, nos seus poulos preferidos.

 

 

Deixando para trás aquelas belezas, iniciamos a caminhada por um dos caminhos de Santiago que de Adrão se dirige para a Peneda, rumo a Santiago. Acredito plenamente que por aqui passou muito boa gente e não me admiraria nada se as bases desta calçada fossem romanas!

 

 

O Jack, pouco habituado a estas situações, tem aqui o seu Arco de Triunfo. Os louros, aqui, são as urzes e Adrão tinha (tem ainda?) bons loureiros lá no fundo da Assureira.

 

 

A calçada continua à nossa frente, um bom caminho de treino porque nos montes da serra de Soajo as pedras serão bem maiores.

 

 

Aqui, os romeiros que se dirigiam à Peneda, e outros caminhantes solitários ou apoiados em montadas, faziam baixar os calores de verão bebendo da sua água. É a Fonte do Ouro. Por alguma razão terá sido! Depois só no lado oposto da Portela junto a Tibo haverá água, ou, então, afastada do caminho.

 

 

Era aqui, no Fojo, que eu deixava o meu ZX dos Diabos, à sombra destas canecipes, onde ficava a ver-me subir até passar a linha do horizonte.

 

 

Desde a Coroa e depois destas canecipes até este cruzeiro, na Portela, foi uma boa arrancada, encosta acima, e logo ao nascer do sol já a transpiração tomava posse de nós.

 

 

 

Mas à vista deslumbrante das montanhas da Peneda, Rouças e Gavieira, só nos resta apreciar o que temos pela frente, ainda mal iluminadas, mas mesmo assim, lindas.

 

 

Voltei-me para o local de onde havia chegado e projectei o cruzeiro sobre a serra Amarela e o Gerês.

 

 

A Senhora da Peneda está lá ao fundo do lado direito e já me tinha dito: «olá Ventor»!

 

 

Voltados para terras de Espanha, podemos verificar que as nossas montanhas se prolongam nas deles e vice-versa.

 

 

Voltados para trás, lá está Adrão, ainda a dormir, mas já vimos, na passagem, gente a regar o milho, pouco, mas tão belo como outrora. 

 

 

Frente a Adrão estão as nossas outras montanhas, mais baixas, mas lindas também. Foi para lá que fugiram os garranos e as "rainhas das montanhas". É nesses montes que os gados que desceram da serra, fugindo ao inêndio, vão procurar sobreviver. Ali se trava, de momento, a luta, gado-lobos! Essas montanhas estão enquadradas por Adrão, Cunhas, Paradela e Várzea. Se fosse noutros tempos que a serra ardesse, as pessoas teriam de vender os seus gados ao desbarato. Hoje não sei. É muito menos!

 

 

A serra de Soajo era linda pelos gados que albergava no seu seio. As rezes de Adrão e de Rouças limpavam tudo por onde andavam. Hoje era só matos. Tojo, urze, carqueja, carrascas, fetos ... Mas se não tivesse ardido, o pouco gado existente ainda era suficiente para a embelezar.

 

 

Mas nós, os dois caminhantes, passamos a ser três! O Luis mandou a festa da Barca às malvas, meteu-se no carro e só parou nas Lameiras, onde nos encontrou. Lá está a viatura no meio dos fetos, como uma "rainha da montanha". Só que esta é de metal. Não come ervas.

 

 

Olhando em frente, à nossa direita, temos a Brusca toda queimada. Nos vales dessas rochas que eu já fiz a pé mais que uma vez e uma delas com o pai do Tomás, ainda miúdo, existiam carvalhos e entre eles, fetos com mais de dois metros de altura. Era uma zona de víboras e o local privilegiado da criação de lobos. Era ali que as lobas iam parir. Não sei se as víboras sobreviveram à asfixia dos fumos quando escondidas nos buracos.

 

 

Esta Montnha derrapou durante os milénios! Agora vamos subir isto tudo para passarmos para trás, mas continuemos ...

 

 

Além das flores e das borboletas, já temos ervas a rebentar. Para o ano, se tudo correr bem, já verei os garranos e as "rainhas das montanhas" a caminhar nas minhas montanhas lindas. Infelizmente, não terão as urzes para lhes fazer sombra e servirem de abrigo contra as moscas. As urzes, para os gados, são uma preciosidade, além de alimento.

 

 

As belezas das nossas montanhas não têm fim e para os que não as conhecem, cada lugarzinho é uma raridade! Dá a impressão que ali cabe o Mundo.

 

 

Como em todo o lado, também ali há a dualidade entre a vida e a morte. A luta pela vida também existe nas minhas Montanhas Lindas!

 

 

 

 

 

Há termos que já me escaparam e entre eles este - a Lage de Nossa Senhora! O Luis recordou-me que é assim que estes locais são recordados. Eles são locais sagrados, aqueles onde os nossos antepassados faziam imagens para comunicar com os vindouros e nossa Senhora protege esses lugares! Por isso, são as lages de Nossa Senhora. Explicação simples para coisas complicadas.

 

 

 

Por aqui passou o terror!

 

 

O Poulo da Ferrada, local onde mais modernamente, se passou a marcar o gado. Encostado ao primeiro poste, do lado esquerdo, está uma mota.

 

 

 

Mas nós não estamos sós nesta caminhada. Há mais uma viatura e uma mota no nosso caminho. No entanto nunca vimos ninguém. Devem de andar à procura de gado que falta, não vá estar esturricado pelo incêndio.

 

 

Vemos ao longe o Fojo do Lobo. Dois muros partem de locais distintos no meio da serra e que se encontram num buraco redondo, cheio de emoçoes e lutas entre homens e lobos.

 

 

Mais uma espreitadela para os montes de Tibo e da Peneda. Em Tibo, o fogo parou devido ao mato curto de um incêndio anterior e à humidade da chuvada que se aproximava. Os gados de Tibo ainda se safam lá por baixo.

 

 

O maior cortelho do Muranho. Os chamados "iglos de pedra", onde nossos avós se defenderam de frios terríveis, pequenos nevões e dos lobos maus.

 

 

Atravessamos o Poulo do Muranho e os seus cortelhos dirigindo-nos sempre para a sua fontinha de águas geladas.

 

 

Mas na minha caminhada terei sempre de homenagear os meus velhos amigos e não esquecer que os que sobreviveram passaram pelo inferno. «Já tenho muitas flores, Ventor e o nosso mundo vai renascer das cinzas» - disse-me esta borboleta!

 

 

Outra perspectiva mais alargada do Muranho e das encostas que nos levarão à Pedrada, depois de bebermos na sua fonte. Essa encosta por cima do Muranho é difícil de subir. O caminho é mau e a pausa para beber água, derruba-nos.

 

 

O Jack, estoirado de uma noitada de festas e de outras anteriores, deve achar que eu e o Luis sofremos de paranoia ao observarmos, tim por tim, todos os cantinhos das nossas montanhas. Ele não imagina o significado que elas têm para nós, mas o mundo na sua rodagem eterna obrigou-nos a seguir outros rumos e guardá-las apenas nos nossos corações, limitando-nos a esperar sempre estes momentos de encontro e nunca saberemos quando um deles será o último.

 

 

Outro cortelho. Estes cortelhos também serviam, noutros tempos, para guardar os vitelos das presas dos lobos, durante as noites.

 

 

Não imaginamos a idade destes cortelhos, mas serão muito velhos, concerteza.

 

 

O gado deitava-se no poulo de noite e de dia, sempre que queria descansar. Juntavam-se ali depois de encherem a barriga durante as manhãs, pela fresca, pelas encostas em volta, voltando para dormir ao sol ou entre as urzes se estivesse calor. Cheguei a ver por ali dezenas de cabeças de gado só em seu redor. Depois chegavam-se para matar a sede e descansarem com a barriga cheia de comer e de água. Numa das minhas últimas caminhadas ao Alto da Pedrada, vi ali 22 vacas deitadas. Agora imaginem nos tempos que as rainhas das montanhas ocupavam todos os recantos da nossa serra, durante os meses de verão.

 

 

Caminhando no Muranho nós, as nossas sombras e as sombras do passado!

 

 

O Jack ficou para trás a apreciar a paisagem. Ele sabe o meu lema. «Subir à Pedrada, sempre a olhar para trás»!

 

 

Sentou-se logo junto à fontinha. Ele nasceu na América mas o seu sangue é de Adrão!

 

 

O Luís está encantado com a sua garrafa de vinho tinto que irá colocar num belo frigorífico natural. Noutros tempos, não tínhamos por hábito passear garrafas de vinho pelas nossas fontes. Agora, o vinho e a cerveja são companheiros de qualquer caminhante. Só espero que as levem e voltem a carregá-las vazias, na volta. Conspurcar montanhas é um crime, ou deveria ser, e isso, nós, não fazemos. Até os biodegradáveis como cascas de laranja, bananas, coiratos do presunto e outros restos, devem regressar, para os que nos seguirem no encalço, encontrem tudo limpo. Além disso, agora, não há animais para os comerem. Nem os javalis lá ficaram!

 

 

Dentro de momentos estará gelada, à temperatura da água. Foram momentos de sacrifício e de beleza, pois é um sacrifíco caminhar numa serra queimada, mas nós sabemos da existência das suas belezas intrínsecas. Além disso, nós queremos a nossa serra viva! As nossas caminhadas servem para isso mesmo!

 

 

Recordar estes cantinhos fazem parte das belezas da nossa vida, porque nós fomos forjados como autênticos montanheiros.

 

 

Agora vamos iniciar a subida da encosta do Muranho, sobre cinzas. E lá por trás? ...

 

 

Mais uma olhada sobre a Naia!

 

 

Sobre um chão de cinzas e de amigos tostados pelas chamas. Eles terão sentido na sua aflição a traição dos homens. Traição pela incúria e pelo desleixo, senão pela malvadez.

 

 

Lá por trás? Vamos ver! Ainda temos muito que caminhar.

Vou continuar a mostrar-vos as montanhas da serra de Soajo, por cima.

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

publicado por Ventor às 13:27