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As Caminhadas do Ventor

... por aí

As Caminhadas do Ventor

... por aí

No cabeçalho, a ponte romana de Cangas de Onis, sobre o rio Sella. Uma maravilha por onde caminharam romanos, árabes e tantos outros.


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Um lago de Covadonga que retrata as belezas dos Picos da Europa, nas Astúrias


O Ventor saiu das trevas para caminhar entre as estrelas.
Ele continua a sonhar, caminhando, que as estrelas ainda brilham no céu, que o nosso amigo Apolo ainda nos dá luz e que o nosso mundo continuará a ser belo se os homens tentarem ajudar...

Depois? Bem, depois ... vamos caminhando!

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Caminhar com Pessoa

 

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Fernando Pessoa

Nas minhas caminhadas, tem estado presente, entre outros, o Fernando Pessoa. O nosso Nandinho literário! À medida que vou caminhando entre o nosso mundo natural onde, com mais ou menos dificuldades proliferam os meus amigos, peludos, penudos e escamudos, e mais uns quantos, procuro meditar em todos aqueles que deram alma a Portugal.

E, como sabem, Fernando Pessoa é um deles. Ele preenche um grande espaço na nossa alma colectiva e, por isso, eu não vou deixar passar os seus 70 anos de peregrinação por entre as estrelas sem o recordar, bem como os seus heterónimos que o multiplicaram. Por isso, aqui estou para agradecer ao nosso Pessoa, a sua caminhada pelo nosso Mar Salgado onde continuam a ser vertidas lágrimas portuguesas. Lágrimas de tristezas que nunca acabam. Assim, neste dia, recordo Pessoa e tento esquecer a chularia da Pátria!

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

S. Martinho

Hoje é dia de S. Martinho. Vamos à Adega ao vinho!!

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A torneira continua a verter água-pé para os clientes

Por isso, como nos meus velhos tempos, quem pode, vai à Adega e prova o vinho! Mas hoje levantei-me e fui à procura de Baco porque, quando o S. Martinho apareceu e se tornou famoso, já eu e Baco estávamos fartos de grandes bacanais. Ainda me recordo do Evoé Baco, que Júpiter gritava na Guerra dos deuses contra os Gigantes quando Baco se batia galhardamente contra o terror de então.

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Este amigo, das escolas de Baco, hoje não tem mãos a medir.  Está a ajudar o empregado da Dona Rita

Um dia Baco lembrou-se das ninfas que o criaram e pediu-lhe para levarem em recipientes de madeira (os velhos barris) a bebida virtuosa para que os Gigantes matassem a sede com ela. Essa bebida era uma maravilha que Baco tinha cultivado e que, nessa altura, eu segui o seu trabalho desde a plantação das videiras, passando pela poda, pela vindima, pelo esmagamento (pisagem), pela fermentação e pelo vinho novo. Era uma maravilha aquele trabalho de Baco e das ninfas da Trácia que desciam do monte Nisa para os vales onde tudo se desenrolava sob a luz do nosso amigo Apolo.

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Este barril foi aviado num ápice

Quando aquela bebida divina estava preparada, os Gigantes nem olharam para trás, provaram-na e gostaram imenso. As Ninfas perguntaram se queriam mais e eles, claro, disseram que sim. Foi aí que começou a reviravolta da guerra entre os deuses e os Gigantes. Essa parte da guerra não vos vou contar, porque é um episódio bélico e já temos episódios desses em demasia no planeta Terra, mas sei que Baco quase adoeceu quando as Ninfas foram buscar em grandes carros de bois os grandes barris de quase toda a colheita do meu amigo. Claro que os Gigantes inebriaram-se e foram apanhados que nem patinhos. "Evoé, Baco"!

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Mas a Tasca da Dona Rita, hoje colocou os barris na rua para que S. Martinho e Baco sejam lembrados

Bem mas hoje eu gostei de comemorar esses episódios e recordo assim o verão do nosso S. Martinho, da sua água-pé e do seu vinho novo, mas não esqueço toda a trabalheira que o meu amigo Baco teve a ensinar os homens a produzir bons elixires. Por isso eu voltei à Tasca da Dona Rita que por ali anda há quarenta e sete anos e ali chegou já com trinta. Segundo ela me disse, vendiam ali tudo, desde a boa e má água-pé, vinhos novos e velhos e que vendiam também petróleo, carvão e todas as coisas que na época eram tão necessárias. Disse-me que chegou a ser ela a levar o carvão à cabeça para satisfazer os clientes que dele necessitavam e cujas encomendas tinham de ser executadas no prazo de uma semana. Fantástico!

 

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É um bom coredor de barris

Mas hoje a Dona Rita, ainda foi mais simpática que da primeira vez. Quando me viu lá do fundo, levantou a mão, sorriu para mim, arrumou a tralha que tinha e veio ter comigo ao Balcão da sua bela Tasca, onde conversamos um pouco sobre a velha Amadora e a nova.

Claro que a nova Amadora deixa muito a desejar com a chegada do betão, mas as vidas das cidades e dos seus habitantes não pára, estando em permanente mutação. Obrigado Dona Rita. Vou comer umas castanhas e levantar o meu copo de água-pé á nossa. Ah, e porque não deixar-lhe aqui um beijinho, de um minhoto para uma saloia desta bela Estremadura. Um dia falarei sobre o meu amigo Baco ou deixarei isso para o Quico. Hoje vou dedicar-me à água-pé!

Bom S. Martinho para todos.

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Uma Tasca na Amadora

Uma Tasca na Porcalhota.

Há muitos, muitos anos que eu passava por aqui, a pé ou de carro, e olhava as portas desta tasca. A Tasca da dona Rita! Eu passava junto à porta ou do lado contrário e via os barris do meu amigo Baco. Olhava a velha caixa do correio que trazia e levava notícias de todo o Mundo. De repente um grupo de amigos, ao verem-me tirar a foto ao correio, pediram-me para lhe tirar uma foto e eu disse que sim, que tirava, mas apenas se os pudesse colocar na Net. Foi meio a brincar, meio a sério.

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Que histórias nos poderia contar este pedaço das vidas de muita gente?

Fotografei-os e depois convidaram-me a entrar na Tasca e eu imediatamente fiquei engodado nas velhices dos tempos passados. Imaginei Baco a beber o seu copo, a esgrimir os seus argumentos com as beldades da região e a fazer com que os seus barris fizessem com que as torneiras despejassem o velho licor nas canecas.

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As belezas que fizeram parte da vida de um ou mais tanoeiros

Conversa daqui, mais conversa dali, o nosso amigo que metido dentro do balcão alimenta as esperanças das gentes, falou em água-pé. Eu perguntei: "água-pé"? Sim, também quer? Oh, homem, espere aí. Você tem água-pé? Sim. A melhor da Amadora. Pode procurar tudo que não encontra melhor!

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Um balcão cheio de histórias

Logo de seguida, um dos que me convidaram a entrar na Tasca, perguntou-me se queria provar e eu, muito inocentemente, disse que não! Oh!!! Foi o que ouvi. Hoje não estou preparado para beber água-pé - disse eu - mas vou voltar para levar alguma se me arranjaram e logo o nosso amigo do Balcão me disse que podia levar dois mil litros que outros dois mil vinham a caminho.

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Estamos a prepararmo-nos para o S. Martinho

Lembrei-me logo das manhas do meu amigo Baco quando se mandava à água-pé! Ele tinha um jeito muito especial para beber água-pé, e muito mais especial para beber vinhos novos. Caminhava de Quinta em Quinta e não se arrependia de beber um copo em qualquer lado que lhe fosse possível.

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O sonho de todos os amigos do meu amigo Baco

Muitos barris! Mas não interessa falar aqui das especialidades do meu amigo Baco. Terei outras oportunidades. Hoje apetece-me falar desta Tasca. Uma Senhora entrou na Tasca e voltou a sair, e logo um dos meus novos companheiros, reformado da Força Aérea, me disse que, aquela Senhora, era a Dona daTasca.

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Tralhas de uma Tasca

Ao mesmo tempo eu disse-lhe que me podia ter dito quando ela passou e não esperar que ela saísse! Ele veio logo com uma velha história em que - no tempo da outra senhora, quando andava na Aviação - etç. etç. tinha-lhe acontecido ... O quê, você andou na aviação? Disse eu com cara de santinho. Sim, andei! Na Civil ou na Militar? Na Força Aérea, pá! Ahhh!!!  É que eu também andei na Força Aérea!

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Aqui sabem-se todas as notícias e sabe-se como os nosso políticos se estão marimbando para o povo

Ali, sem sabermos onde há um princípio e um fim, começou uma conversa que nunca mais acabava, sobre a Metrópole, a África e todas as misérias relacionadas, mas ele ganhou-me! Ganhou-me quando me disse que andou lá 33 anos até à reforma e quando eu lhe disse que me contentei com 52 meses ele ficou triste como que a indicar-me que eu não era o parceiro ideal.

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Mais tralhas para todos os olhares

Mas a Senhora voltava e ele chamou-a logo! Esta é a dona da Tasca, a Senhora dona Rita! E apresentou-me! «Um amigo meu desde há alguns minutos e que gostava de a conhecer». Então o que era, disse a Senhora? E eu que estava atirado para ali sem saber ler nem escrever disse-lhe que achava muita piada à Tasca e se ela era de facto a dona se não se importava que a fotografasse. Perguntou-me logo se era repórter de algum jornal ou revista e quando eu disse que não, logo me perguntou porque gostaria de a fotografar?

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A Senhora Dona Rita, uma simpatia para todos

Não é nada de especial. É que há mais de 40 anos que passo nesta rua e sempre olhei a disposição destes barris ou outros antes e sempre gostava de ter aqui entrado mas nunca se proporcionou, só hoje, a pedido destes amigos e como tenho um Blog gostaria de falar sobre este cantinho tão velho, tão simpático e tão acolhedor! «Um Blog? O que é isso»? Expliquei à senhora esta história dos blogs e ela logo anuiu a ser fotografada e que poderia colocá-la a boiar na Net que não haveria problema nenhum. Que a sua Tasca já tinha sido alvo de assédios televisivos e que pelo menos as televisões já lá foram 3 vezes e que pensava que foram as três ou pelo menos uma delas foi lá duas vezes!

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Agora vou partir, mas prometo voltar

Ao observar aquela tasca com o mesmo aspecto de há 40 anos atrás, comecei a imaginar com quantos anos aquele cantinho terá carregado. Séculos? Quem sabe? Olhem bem para este estilo e imaginem comigo! Mas, para mim, é mesmo velha que baste. Logo me foi dito que é a Tasca mais velha da Porcalhota e mais precisamente, de toda a Amadora.

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Olhem como é bela a Tasca da Dona Rita

Mas isso pouco interessa, apenas interessa que ela faz parte da caminhada da minha vida. Por mais algum tempo continuarei a passar por lá e sempre que me meta a caminho, olharei, mesmo que imaginando, a torneira a pingar. O pingo da força que nos arrastará na caminhada de cada um com mais um sopro de alento.

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O pingo que chamava à realidade o meu amigo

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira