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As Caminhadas do Ventor

... por aí

As Caminhadas do Ventor

... por aí

No cabeçalho, a ponte romana de Cangas de Onis, sobre o rio Sella. Uma maravilha por onde caminharam romanos, árabes e tantos outros.


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Um lago de Covadonga que retrata as belezas dos Picos da Europa, nas Astúrias


O Ventor saiu das trevas para caminhar entre as estrelas.
Ele continua a sonhar, caminhando, que as estrelas ainda brilham no céu, que o nosso amigo Apolo ainda nos dá luz e que o nosso mundo continuará a ser belo se os homens tentarem ajudar...

Depois? Bem, depois ... vamos caminhando!

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Montanhas Lindas - Castro Laboreiro

Castro Laboreiro

Em mais uma das minhas caminhadas por Castro Laboreiro, quero deixar aqui a minha homenagem a estas gentes serranas e às suas belezas.

Pouco conheço de Castro Laboreiro a não ser tudo o que me contam, tudo o que leio e de uma ou outra passagem por lá no deambular dos tempos. Mas posso dizer-vos que toda a região de Castro Laboreiro é um monumento. Desta vez descobri outro monumento: “o borrego grelhado”! Mas, não vos vou falar do borrego grelhado nem do Restaurante Miradouro. Vou falar-vos de Castro Laboreiro no seu todo. Nos penhascos (que dizer dos seus penhascos?), das suas gentes e da minha grande desilusão!

Uma beleza na serra

 

 Belezas de muitas centenas de anos
 
Os seus penhascos são um monumento a toda a Natureza! Eu sei que, por entre os seus penhascos, enquanto caminhavam os séculos, caminharam também as suas gentes. Gentes de muitas raças que foram rodando por muitos dos cantos desta Europa. Hoje continuam a caminhar por Castro Laboreiro, as suas gentes e outras gentes deste mundo que chegam e partem em camionetas de turismo. E vale a pena o passeio! Os descendentes de Castro Laboreiro que, certamente, tal como os de Adrão, estarão espalhados por esse mundo, por outras terras com outros penhascos, também gostarão de voltar para ver a terra de seus pais e avós. Todos fomos levados na chama de um Dragão chamado Diáspora, mas vamos voltando sempre até ficar ou até partir para nunca mais.
 
Eu caminho cantando ao som dos seus ribeiros
 
Mas o que mais se nota por Castro Laboreiro, são os sinais dos tempos longínquos, como os moinhos da minha amiga Flora e as pontes dos nossos amigos romanos para atravessar em segurança para a outra margem. Eu vi algumas das suas pontes sobre riachos de pouca água, ou de tempo estival, que são autênticos monumentos nacionais. Deslumbrei-me com as águas límpidas caminhando e cantarolando de rocha em rocha, esquivando-se por entre os carriços, ao mesmo tempo que homenageavam os arcos romanos que sobre elas se escanchavam ao mesmo tempo que os penhascos de granito se inclinavam para espreitar os trabalhos das gentes que há milénios por ali caminham. Estou-me a lembrar do arqueólogo galego, Pablo Novoa e os seus estudos das imagens das pedras. Não nos esquecendo que, por ali, a erosão destrói tudo, porque não?
 
Aqui o betão protege o moinho
 
Outros monumentos que não posso deixar passar são os carvalhos esburacados e podres de velhos que duros e erectos ou retorcidos, lembrando corcundas, faziam uma vénia à passagem do vosso amigo Ventor. Creio mesmo que, à sua volta, os duendes dançavam e cantavam misturados com almas de gentes que à sua sombra se abrigavam em dias de calor como este que por lá passei. Eles são dignitários da companhia dos velhos druidas (ou congéneres) que certamente nasceram e morreram por estas terras antes de os romanos e outros chegarem e, tal como eu, muito olharam os seus nobres carvalhos, vibrando.
 
O calor era muito, mas só olhar os charquinhos já atenuava
 
Mas também tive a minha desilusão! Passar por Castro Laboreiro, correr todos os lugares ou quase todos espalhados por entre os seus penhascos e não encontrar nenhum dos seus belos cães, foi para mim uma desilusão. Conheço alguém que veio da América com a ideia de levar um cão de Castro Laboreiro e só de ouvir falar deles, pois não conhecia nenhum, ainda mais desiludido fiquei por lhe ter pedido para não levar nenhum cão porque eles eram dali, daqules belos montes e não quereriam nada estar fechados num quintal do tio Sam, pois prezavam a sua liberdade! Ela já não vai querer mais um cão de Castro Laboreiro e eu não voltarei mais a Castro Laboreiro com o fito de ver um só dos seus belos cães e sempre fiéis amigos. Nunca me esqueço da história que o meu pai me contava desse cão de Castro Laboreiro, chamado Jolim e que o meu Quico reconta na página: «Quando os Lobos Descem a Serra».
 
 
Como podem verificar são belezas de ontem e de sempre.
 
 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Outro Sonho do Ventor

O Ventor não quer que eu conte os seus sonhos, mas vou contar. Por isso invadi o seu blog!

Uma noite destas ouvi o Ventor sonhar e acordou muito transtornado com um pesadelo. Eu só ouvia ele gritar. “Antar”! “Está quieto Antar”! “Tu dás cabo de tudo, Antar”! Isto era o que eu ouvia ao Ventor.

Claro que o Ventor já me tinha falado do seu cavalo branco, Antar, mas agora eu precisava de saber porquê aquela conversa toda com o Antar.

Então o Ventor contou-me, o resto do seu sonho que foi assim:

O Ventor sonhou que estava numa grande fila de automóveis e era impossível sair do mesmo sítio. De repente, vindo do céu, desce sobre aqueles automóveis todos um belo cavalo branco. O Ventor saiu do carro e começou a gritar pelo cavalo.

“Antar! Antar”! … “Que fazes aqui, Antar”?

E o cavalo branco respondeu-lhe que veio buscá-lo!

«Venho buscar-te, Ventor».

“Mas eu não vou. Eu pertenço a esta parte do Mundo, tu pertences à outra”.

 «Tu vais comigo Ventor. Eu prometi que te ia levar daqui».

“Prometeste a quem? Antar, tu só me obedeces a mim”! 

«Não me chames Antar, Ventor. O Antar é o meu pai, está muito doente e eu prometi-lhe a ele e ao Senhor da Esfera que te ia levar comigo. O meu pai e o Senhor da Esfera estão com saudades tuas. Eu sou o cavalo mais poderoso que existe na grande Esfera e trouxe comigo essa missão. Levar-te, Ventor!» 

“Missão impossível. Eu não vou”! 

«Ou vais comigo, ou eu dou cabo destes carros todos, Ventor. Começo já por este».

Espetou dois coices num carro de amigos nossos. O homem meteu as mãos à cabeça e a mulher saiu do carro a gritar quanto podia com o Ventor que tinha de matar aquele cavalo.

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 Tal e qual o Antar

“Mata o cavalo, Ventor, senão ele destrói tudo”!

O cavalo desfez mais dois carros e o Ventor pegou num grande arrocho e prometeu dar cabo do cavalo. (Às vezes precisamos de fazer promessas!).

O cavalo branco colocou-se em frente do Ventor a ameaçá-lo com as patas da frente e com a boca aberta a mostrar-lhes os dentes grandes e branquinhos.

Depois provocava-o para o Ventor lhe dar com o arrocho, mas o Ventor tinha oportunidade mas não lhe dava. Só se lembrava do Antar, um cavalo maravilhoso que nunca poderia ter um filho assim, pensava ele.

Depois o cavalo branco faz uma correria sobre a fila de automóveis e com mais dois coices espatifou uma série deles. O Ventor, de arroxo na mão, só pensava no Antar e pensou que o Antar e o Senhor da Esfera não lhe podiam ter feito aquilo. (Só podia ser obra do diabo!).

Pediu ao cavalo branco para se ir embora e que não danificasse mais viaturas pois era um comportamento indigno de um cavalo celestial.

O cavalo branco fixou o Ventor, olhos nos olhos e deu início a mais uma correria sobre as viaturas fixando-as. Começou aos coices nas viaturas danificadas e colocou-as todas como estavam. Depois dirigiu-se ao Ventor voltou a olha-lo nos olhos e disse-lhe: «É verdade Ventor. Meu pai - o teu fiel cavalo Antar - mais o Senhor da Esfera, estão com saudades tuas e eu prometi-lhes que te vinha buscar. Se te levasse ganharia uma grande aposta, se não te levasse haveria de provar se tu eras o senhor de que meu pai me falava. Com o arroxo na mão tentaste intimidar-me, mas nos teus olhos nuca vi um sinal de ódio. Voltarei para eles vencido mas com a alegria de lhes contar que tu continuas a ser como eles me disseram que eras”. 

«Adeus Ventor»!

O cavalo, uma beleza branca, subiu pelo ar fora até se perder de vista penetrando pelo céu dentro. Ao lado do Ventor as pessoas batiam palmas ao cavalo que desaparecia e ao Ventor.

 Mas a única realidade é que o Ventor acordou de um grande pesadelo, todo molhado, encharcadinho em suor e encontrou-me sentado a seu lado, cheio de curiosidade. Para não se esquecer, foi-me contando o sonho e ia-me fazendo festas como teria feito ao Antar se estivesse aqui connosco.

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Arcos de Valdevez - Os Malinos

Os Malinos são mesmo Malinos!

 

Mas são um encanto a tocar bombo e caixa. Não cheguei a vê-los a tocar gaita-de-foles nem concertina mas, só pela conversa, deu para perceber que devem ser mesmo bons em tudo.

 

Na nossa última noite em Arcos de Valdevez, deu para ouvir uma “bombarda terrível” que até parecia que os cavalos de Afonso de Leão e do nosso Afonso, o Conquistador, estavam irrequietos, prontos para entrar numa dança em vez de um combate. Ainda pensei voltar para trás e ir ter com os bombos mas a coisa não estava bem para eu aumentar mais um pedacinho à minha caminhada.

 

No dia seguinte havia por ali, nas belas águas do rio Vez, outro torneio, não de vida ou de morte, mas de Kaiaks. Haviam por ali carrinhas de várias localidades e motocars e até parecia que tudo aquilo estava em festa, mas também quando o Norte não está em festa, quem está? Demos por ali umas voltas, pelas zonas do Vale, pelo Mezio e por Travanca e regressamos à vila, depois de cumprimentar os meus amigos de milénios.

 

                          Aqui jazem homens de antanho

 

Em Arcos de Valdevez, tivemos de arranjar onde almoçar e, para isso, teria de ser um local onde coubesse o meu amigo Zé! Fomos ao local perguntar se podíamos almoçar na Esplanada onde teríamos o Zé junto de nós e à sombra. Assim foi. Havia uma mesa para cinco e para o Zé junto de nós. À nossa volta alguma rapaziada vestida de verde. 16, se sei contar. Mas levantei-me e procurava os lavatórios, porque não conhecia o restaurante que tinha sido todo renovado. Um rapaz, dos vestidos de verde logo se prestou a dar a sua ajuda e indicou-me por onde ir. Lá fui. Atravessei aquela “Floresta” toda, era assim que se chamava o Restaurante, e quando cheguei deu-me para ler a camisola que me tinha indicado os lavabos. Na camisola estava escrito os Malinos. Olhei os outros e tinham escrito a mesma palavra e a casa que os ajudava nas suas andanças – uma salsicharia. Virei-me para o que estava mais perto e perguntei-lhe: «vocês são Malinos a fazer o quê»?

 

Daí veio todo o historial do grupo. “ Nós somos Malinos a tocar bombo, a tocar caixa, a tocar gaita galega, a tocar concertina”! Um puto com 22 anos que tinha todo o jeito de ser o “cabecilha” e que irradiava simpatia por todos os poros, apresentou-me a sua rapaziada que ia desde uma menina de 12 anos que tocava concertina até o mais velho com 28 anos que tocava bombo. O chefe tem 22 anos e toca caixa. Os mais velhos que faziam parte do grupo trabalhavam em vários ramos e tinham de tomar conta do bombo em dias de festa.

 

O chefe do grupo ofereceu-me um cartão e depois ainda voltou ao restaurante para me oferecer um postal com a imagem do grupo em equipamento laranja. Eles vestem camisola verde ou camisola laranja.

                                     

 Os Malinos em camisola laranja

 

Faziam parte de outro grupo de Zé P’reiras, mas zangaram-se e os que partiram formaram um grupo novo. Agora a sua condição de Malinos dá bem para rebentar com os bombos e ganhar prémios. Tocam tanto bombo que têm de proteger as mãos todas calejadas. Para eles rebentar com as peles dos bombos, partir baquetas e arrasar em volta, bater os seus velhos amigos, é condição necessária. Tão necessária, como beber 14 litros de água por dia, nestes dias de intenso calor para continuarem a “bombar” nos instrumentos.

 

                     Eis o Malinos a actuar no adro da Igreja do Souto

 

Depois do almoço regressamos à auto-estrada pelo lugar do Souto onde eles iam actuar. Chegamos no fim, mas deu para ver que eles são mesmo bons! Debaixo daquele calor arrasador as grandes bandas esperavam a sua vez, mas tinham de aguardar a actuação dos Malinos. Perguntei-lhe pelas gaitas de foles e pelas meninas das concertinas, ele com tristeza no olhar, por não os vermos em todo o seu esplendor, disse-me que já tinham actuado. Uma das meninas disse-me: «venham à festa dos Arcos e vão ver o maior show da vossa vida, com bombos, caixas, concertinas e gaitas galegas».

                 Eles continuam bombando

 

Falo-vos nos meus amigos Zé P’reiras, os Malinos porque eles são mesmo Malinos. São Malinos contra o ócio, contra a tristeza, contra a vida inútil da maioria da nossa juventude. Eles transpiram alegria e transformam o semblante daqueles que por razões várias a sorte não bafejou ainda. Eles levam alegria cheia de música ás ruas dos Arcos, do Souto e de muitas terras do nosso Minho. Eles conseguiram mostrar-me que tocar bombo, tocar caixa, e outros instrumentos é muito difícil, mas vale a pena viver a vida como gostamos.

 

E assim terminaram com esperança de que, em Agosto, ainda ouçamos e vejamos as gaitas de foles e as concertinas

Boa sorte, na vossa Caminhada, amigos Malinos!

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira