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As Caminhadas do Ventor

... por aí

As Caminhadas do Ventor

... por aí

No cabeçalho, a ponte romana de Cangas de Onis, sobre o rio Sella. Uma maravilha por onde caminharam romanos, árabes e tantos outros.


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Um lago de Covadonga que retrata as belezas dos Picos da Europa, nas Astúrias


O Ventor saiu das trevas para caminhar entre as estrelas.
Ele continua a sonhar, caminhando, que as estrelas ainda brilham no céu, que o nosso amigo Apolo ainda nos dá luz e que o nosso mundo continuará a ser belo se os homens tentarem ajudar...

Depois? Bem, depois ... vamos caminhando!

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Covadonga

Já vos contei, por aqui, algumas coisas sobre Covadonga.

Também já vos falei, por aqui, do meu amigo Pelágio, das suas Montanhas Lindas, das suas Astúrias, da sua ida para Córdoba, sob o jugo muçulmano, como refém, como nobre visigodo, ... Enfim, tudo tem a sua razão para levar a efeito a sua caminhada.

Todos calculamos, mais ou menos, como terá sido a vida de então, na nossa Península, mais ainda, nas zonas de influência do poder.

A partir da morfe do rei visigodo Roderick e de todos que com ele tentaram enfrentar os invasores de outras paragens, avançando desde Toledo até Guadalete, onde acabaram por morrer em combate ou em fuga, a vida nas espanhas, tornou-se um pesadelo!

Do género ... ou te convertes a Alá, ou morres, ou pagas ...

Pelágio no seu Pedestral

Todos os que viviam do povo, como os nobres visigodos e suevos, ficaram destroçados e os povos passaram a servir outros poderes. Por isso, sob o avanço muçulmano, uns eram os trocidados e outros seriam os que tentariam sobreviver fugindo. Recuando sempre até encontrarem o mar, algures lá por trás das paredes Cantábricas.

De entre os que escaparam às escaramuças levadas a cabo pelos muçulmanos, houve os que se foram firmando lá pelos lindos vales cantábricos. Por trás havia o mar e para além do mar não haveria mais nada. Por isso, apenas haveria duas potenciais soluções: o jugo ou a morte! 

Pelágio em frente da Igreja

Então, a dureza dos montanheiros das Astúrias, mais os que de outras paragens foram chegando, aprenderam a observar em volta que, ali, seria, sem dúvida, o seu último reduto e que nada mais restava, senão lutar até à morte.

No reduto das Astúrias, estava a esperança de todos! Todos nas suas montanhas eram reis! Foram travando escaramuças e vários tipos de lutas contra os muçulmanos que foram chegando de todos os lados e até pelas minhs Montanha Lindas eles foram passando. Eles sabiam que para derrotar todos os que enquadraram as suas defesas integrando-as pelas montanhas cantábricas, teriam de travar uma luta para além das simples escaramuças que iam perdendo.

Daí, da organização de forças, resultou a tal Batalha de Covadonga que os muçulmanos perderam, mas ainda não satisfeitos, reorganizaram-se e houve mais uma batalha onde, mais uma vez, foram destroçados e perderam o seu comando em Proaza com a morte do seu comando, na pessoa do Governador muçulmano, Munuza.

A Basílica de Covadonga

Daí em diante, por muito tempo, a chama viva asturiana iluminou a ibéria, foram séculos de lutas, com avanços e recuos, até à queda de Granada.

Por isso, apesar de ter por duas vezes, passado junto de Covadonga, sempre a pensar nos tempos da Reconquista, houve um dia que me senti parte dessa luta. O dia em que, pela primeira vez,  vi o meu amigo Pelágio, de espada na mão, e com a sua alma bem incrustada naquela estátua de pedra. 

Apontei a minha máquina àquela estátua e ouvi a voz de Pelágio dizer-me: "partilho contigo, a minha glória, Ventor"!

Imaginei-me, então, no seio dos homens cantábricos, lutando, palmo a palmo, por cada pedaço, por cada quinhão das suas montanhas! Partilhei da sua caminhada sobre cada vale, cada rio, cada morro dos seus montes até às planuras a sul de León!

A Pia da Água Benta

Não pude deixar de prestar a minha homenagem a todos aqueles homens que, a partir de Covadonga, levaram a bom porto a libertação da Península das mãos dos invasores. Sim! Por bem ou por mal, os muçulmanos não passaram de uns invasores, tais como outros já o tinham sido. A Península Ibérica, foi sempre, uma encruzilhada de mundos.

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Camaleño a Covadonga

 Mais uma bela caminhada!

No dia 12 de Julho de 2007, despedimo-nos de Camaleño. Até quando? ... Mas eu, peguei na máquina e pensei em trazer Camaleño comigo. Apontei a máquina àquelas suas belas montanhas, clickei e pronto!

Colocamos as malas no carro e, sempre a olhar as belezas naturais de Camaleño, só fazia uma coisa: disparava contra todos os cabeços que rodeavam o nosso local verde.

Uma carroça no Hotel, em Camaleño, já cansada de percorrer carreteras

Por fim, fizemo-nos a la carretera que nos iria levar de retorno a Potes, para escolher aquele azimute desejável. Mais uma volta pelo centro de Potes e, eis-nos com a opção de escolha. Era la carretera N-621, rumo a Ryaño.

De Potes a Ryaño, caminhamos entre paisagens paradisíacas dos Picos e quase sempre, pelos vistos, em velhas terras de la Reina. Daí, e sempre na mesma estrada N-621, certas localidades como Llanaves de la Reina, Portilha de la Reina, Barmiedo de la Reina, outra localidade, a que achei muita piada, pois não vi espelhos nenhuns, a que chamam Los Espejos de La Reina, Villafrea de la Reina, Boca de Huérgano e, de seguida, eis-nos a observar a Embalse de Ryaño!

Uma esplanada no hotel, em Camaleño

Toda este trajecto da nossa caminhada eu admirei muito, não só pelas suas montanhas fabulosas, onde, segundo informações ainda haverão ursos, camurças, veados, ... e outras espécies de animais selvagens. Pelo menos, tudo indica que, com ursos ou sem ursos, por ali, sente-se que se trata de um espaço envolvente com grande variedade na sua fauna.

Mas de uma coisa eu tenho a certeza. A sua flora tem mesmo de ser riquíssima e se a flora é rica, também a fauna o será! Nos profundos vales abertos, entre aquelas grandiosas montanhas, a variedade de manchas verdes dos seus bosques, cheios de árvores diversas e os espaços abertos nas encostas, onde crescem os fenos e rebentam todos os tipos de flores selvagens, como rosas bravas, dedaleiras, ericas rosadas, margaridas e muitas outras que acompanham o crescimento dos fenos, como as minhas lindas flores do São João, tornam os picos um autêntico Paraíso terrestre.

A esplanada e a entrada para o hotel, em Camaleño

Eu nunca tinha visto tanta dedaleira junta, na minha vida. Apenas em Julho de 2009, dois anos depois, pelos planaltos de Castro Laboreiro, olhando, outra vez,  tanta dedaleira, mais me parecia tratar-se de mensagens poéticas coloridas, enviadas pelos Picos para que não me esquecesse, nunca mais de todas as suas belezas e, entre elas,  as suas dedaleiras. Essas mensagens poéticas, sei-o bem, também foram enviadas pelas corolas azuis dos raminhos de S. João, que encontrei por Castro Laboreiro e por todos os cantinhos das minhas montanhas lindas, desde Lindoso a Melgaço, sem esquecer Adrão. O ano de 2009, tal como 2007, mostraram-me que nunca devo esquecer todas aquelas belas mensagens coloridas, sempre possíveis, porque as flores estarão sempre a caminhar a meu lado, pelos meus belos trilhos e sempre sob os auspícios do meu amigo Apolo! 

A mesma esplanada

Umas voltas por Riaño e, então, adeus a la carretera N-621, cuja envolvência a torna numa belíssima carretera e, penetramos na nossa quase desconhecida carretera N-625, rumo a Cangas de Onis.

Assim fomos rodando ao lado do rio Sella, no chamado desfiladeiro dos Beyos, com destino a Covadonga e passagem por Cangas de Onis a primeira terra feita capital cristã do velho reino das Astúrias, pelo meu amigo Pelágio, logo na sequência da batalha de Covadonga, antes de Oviedo.

Tudo continua a ser lindo por este lado dos Picos mas o que mais me chamou a atenção foi ver rapaces em quase todo o trajecto. Antes de chegarmos a Cangas de Onis, uma águia real desceu da nossa direita e poisou mesmo a meu lado, apenas com o Rail entre ela e o carro e vi que ela apanhou um bicho que não identifiquei. Só eu é que a vi, pois o meu pessoal ia a falar de algo sobre a nossa caminhada e não tiveram tempo de acompanhar o voo picado da águia, nem a sua partida.

Íamos a uma velocidade permitida de 80 kms/h e não deu para parar e fotografar, mas fiquei com pena de apenas a ver aterrar bruscamente, no momento da nossa passagem.

  

Um telheiro para descansar quando saímos do carro

Depois de admirarmos o Desfiladeiro de Beyos onde flui o rio Sellas, apareceu no nosso horizonte, Cangas de Onis, mas o objectivo continuava a ser Covadonga e os seus lagos. No entanto como disse em relação ao rio Deva, todos os rios nos contam histórias. Olhando as água de um rio, observando-as calmamente, elas têm histórias para nós, e até cantam para nós!

Sobre o rio Sella, direi muito sintèticamente, que tem um pequeno percurso de cerca de 42 kms, que nasce na Fonte do Inferno, lá pelo extremo Ocidental dos Picos da Europa, absorve as águas do porto do Pontón, em terras leonesas e escorre numa fenda profunda a que dão o nome de Desfiladeiro de Beyos, continuando a sua caminhada até ao mar Cantábrico. Tem dois afluentes principais: o Ponga da esquerda e, da direita, o rio Dobra que nasce nos Picos, na Colina Santa (2.589m) e passa por baixo da ponte romana-medieval de Cangas de Onis.

Mas o rio Sella é também o paraíso dos pescadores de salmão, o santuário dos praticantes de canoagem de todo o mundo e o caminho para lugares dos mais lindos das Astúrias, tal como Covadonga e os seus lagos Ercina e Enol.

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Altamira a Camaleño

Depois de algum diálogo com espíritos passados, em redor de La Cueva, em Altamira, reiniciamos a nossa caminhada com um objectivo bem determinado: S. Vicente de La Barquera. Desde Santillana del Mar, entramos na autovia del Cantábrico e rumamos a essa estância turística. Demos uma volta por ali, usando a pala e regressamos à autovia del Cantábrico dirindo-nos alguns kms para West. Depoiis entramos na carretera N-621, rumo a sul, rodando no Massiço Oriental dos Picos. Por ali, nos vales dos Picos e seus arredores, lá mais para o fim da tarde, recomeçaríamos a procura de local aprazível onde fizéssemos escorrer o cansaço de um dia cheio de estradas.

Rumando contra o tempo no desfiladeiro cársico do rio Deva

Após reiniciarmos a viagem, não tardou muito, começamos a penetrar num desfiladeiro que, através dos milénios, foi aberto a escopro pelo rio Deva que nasce nos montes de Fuente Dé, nos Picos da Europa e vai jorrando, umas vezes mais lento, outras vezes mais rápido, por 64 kms, até se abrir no Mar Cantábrico, numa ria a que chamam Tina Mayor.

Antes de Potes, rumando a norte, o rio abre o grande desfiladeirro cársico de La Hermida, com cerca de 20 Kms e se torna um refúgio dos abutres. Dentro desse desfiladeiro, fica anichada a aldeia de La Hermida, entre aqueles paredões cársicos que, de Outubro a Março, me disseram, não recebe um raio de sol!

Depois o rio Deva entra nas Astúrias e recebe, da sua esquerda, o rio Cares que, sempre na brincadeira, desce das belas montanhas de Covadonga, esculpindo tudo à sua passagem, abrindo aquele tremendo desfiladeiro de Cares.

Mas os rios contam-nos histórias e, essas suas histórias, até podem ser interessantes, tal como a história do Deva.

O Deva nasce nos belos montes de Fuente Dé e atravessa a comarca de Liébana, uma terra pequena com algumas centenas de habitantes mas que partilha do seu espírito religioso com Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela, devido à sua remota localização entre as Montanhas Cantábricas.

Potes, as belezas de uma localidade cantábrica

Como nos apercebemos do que vemos e do que a história nos conta, ficamos a saber que o vale do rio Deva foi sempre uma zona de refúgio entre as montanhas e foco de resistência, primeiro contra a invasão dos romanos e, mais tarde, contra a invasão dos muçulmanos. E ficamos a saber que quase todos os topónimos da Comarca de Liébana, estão ligados à história ou à lenda.

Potes, uma igreja diferente das nossas

Pelágio terá nascido na aldeia de Cosgaya, entre Camaleño e Fuente Dé e, também terá sido aqui, em Camaleño,  que derrotou pela primeira vez, as hostes muçulmanas, durante as primeiras escaramuças, por ali,  entre cristãos e mouros invasores e, também foi ali, num local chamado Planos, que uma avalanche terá sepultado os árabes que tinham fugido da Batalha de Covadonga em (c.718).

O porta-estandarte de Pelágio, seria um moço de Mosgroviejo, bem perto de Camaleño. E o rei Favila, filho e sucessor de Pelágio, terá sido morto por um urso, em Las Ilces, entre os locais de Cosgaya e Fuente Dé, no meio de uma floresta de faias.

O Mosteiro de Santo Toríbio é a jóia do vale do Deva no município de Camaleño e, para que se saiba, foi mandado construir por Afonso I que sucedeu ao rei Favila.

O então Bispo de Palência, Santo Toríbio, foi cristianizar a comarca de Liébana e que, desde a montanha Viorna lançou a sua bengala até ao vale para decidir o lugar onde levantar um templo. Um boi e um urso acompanhavam o Bispo e convencidos por aquele convívio milagroso, o povo de Liébana ofereceu o seu trabalho ao bispo para a construção daquele mosteiro em Camaleño.

Camaleño, um hotel com flores à chegada

Algum tempo depois, chegaram ao mosteiro uns caminhantes que transportavam, desde Astorga, o Lignum Crucis, um fragmento da cruz de Cristo, cuja madeira parece de um cipestre da Palestina com a data dos tempos de Crisro. Essa relíquia que já estaria há 200 anos em Astorga e tinha sido trazida, da Terra Santa, por outro bispo com o mesmo nome de Santo Toríbio, e com medo que os muçulmanos se apoderassem dessa relíquia, os de Astorga decidiram transladá-la para o vale inexpugnável de Liébana.

Foi assim que Calameño se tornou num quarto santo lugar da Cristandade.

Em 1512, o Papa Júlio II, declarou o Ano Santo Libaniego (ano em que a festividade de Santo Toríbio, 16 de Abril cai ao domingo e concedeu o Jubileu (o perdão de todos os pecados) àqueles que nesse ano peregrinem até Camaleño, atravessam a Porta do Perdão do mosteiro de Santo Toríbio e veneram o fragmento da Santa Cruz, incrustado, desde o Séc. XVI, numa cruz de prata dourada.

Mas o vale do Deva, na Comarca, oferece outros atractivos - o turismo. Desde o grande mosteiro de Santo Toríbio, os casarões de Cosgaya, os celeiros de Espinama, junto a Fuente Dé, a torre medieval de Mogroviejo, as escursões pelos Picos da Europa, bem como as belezas que a natureza nos oferece nos assombrosos bosques das encostas do rio Deva.

Esta comarca de Liébana é um belo sítio, uma espécie de "ilha" seca com muito sol no meio das lindas montanhas atlânticas, com invernos suaves, verões secos e belos outonos com bosques de cores multifacetadas.

A azinheira, o sobreiro, as faias, os castanheiros, os teixos, os amieiros, os azevinhos, os choupos, as avelaneiras, os freixos, ... mostram-nos o verde que nos maravilha durante o verão.

Calameño, um hotel com um banquinho que se entrega ao nosso descanso

A fauna é também abundante: sobrevivem o urso, o trataz, a águia-real, espreitam os lobos, todos em vias de extinção.

Abundam javalis, veados, corsas, camurças, ...

Cultiva-se o trigo, a cevada, o centeio e a vinha ...

As carnes são boas, as trutas, os salmões, os enchidos artesanais, hortaliças, frutas, cogumelos, o cozido da região, queijos com denominação de origem ... dizem eles, é tudo bom.

Enfim! A nossa caminhada no vale do Deva, contrariando a vontade do rio, ele dirigindo-se para norte e nós para sul, presenteou-nos com maravilhas ainda disponíveis neste nosso tempo.

Admirando a bela localidade turística de Potes, e seguindo por Camaleño, rumo a Fuente Dé, apreciando sempre todos aqueles picos e florestas maravilhosas, foi para mim um dia para não esquecer. Depois, no regresso, de Fuente Dé, encontramos um local bem lindo em Calameño, onde, num belo hotel de montanha, acabamos por pernoitar. Entregues as malas à guarda do hotel, lá voltamos a Potes, onde, com toda a calma do mundo, nos banqueteamos com um belíssimo jantar.

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Cilleruelo de Bezana a Altamira

Ao sair de Cilleruelo de Bezana, fizemos a nossa despedida da igreja que creio chamar-se de mosteiro de S. Cosmo, mas não deu para confirmar, não deixando, no entanto de lhe tirar mais uma foto e olhar o céu carregado de nuvens com ameça de chuva, uma chuva molha tolos, o que se foi confirmando estrada fora.

Mas pronto! Tivemos mesmo que rafazer as malas!

Às vezes custa refazer as malas! Só mesmo o entusiasmo de reiniciar a caminhada ajuda!

Malas refeitas, uma observação meteorológica às nuvens e uma pequena caminhada pela terra, para saber como e porquê  e para descontrair os músculos e, eis-nos a caminho.

Como o tempo ameaçava o Ventor, em pleno mês de Julho, sempre que o meu amigo Apolo dava uma espreitadela sobre o mau humor deste vosso amigo, só me ouvia dizer: "I catch you, Apolo"!

A mão do Ventor, tentando apanhar o sol

Mas o meu amigo Apolo dizia-me que não era ele o culpado de tanto fazer chorar as fadas de Neptuno. Elas teriam pedido algo a Neptuno que este não lhes deu e elas começaram a chorar e, quando descobriram que o Ventor fazia as suas belas caminhadas pelos montes que ele admirava, e já ali se encontrar sem que elas fossem informadas, ainda mais elas passaram a chorar!

Assim, o Ventor, Apolo e Neptuno, lá acabaram por animar as meninas que só mais tarde, depois de uma grande chuvada na cidade de Santander e a rogo das musas dos encantos, das fontes, dos rios, da terra ... dos duendes ... enfim, de todos, Apolo, me confessou que já estava farto de ver a minha mão a tentar caçá-lo!

Podes usar a máquina Ventor, eu já não vou fugir!

 

 

Este monumento representa-me a alma dos bizontes de outrora

Por isso, após a nossa saída de Santander, as coisas começaram a compor-se. Demos por ali umas voltas, e contra-voltas, junto à costa e, por fim, apontanos o nariz rumo a Las Cuevas de Altamira mas, a ameaça do duelo entre Apolo e as fadas mantinha-se. Já tínhamos, noutros tempos, observado, em melhores condições, La Cueva e seus arredores.

Mas foi lindo! Não sei se sabem que as estátuas, as representações de pessoas e animais ganham alma. E mais ganham ainda quando, noutros tempos convivemos sob a benção do meu amigo Apolo. Não fosse a caminhada do tempo e a transformação que os homens dão, caminhando a seu lado, e tudo estaria na mesma.

Se as caminhadas das civilizações e o seu âmbito cultural tivessem sido mais céleres e cuidadosas, talvez ainda hoje o Ventor conseguisse dialogar com os bizontes de outros tempos.

Os bizontes que foram um dos sustentáculos da alimentação dos meus amigos de la Cueva

Também, nos milénios passados, as várias espécies de ericas que por ali homenageavam o meu amigo Apolo, mostravam a beleza das suas flores à porta de La Cueva de Altamira e, enfeitavam então, os pastos dos bizontes que se alimentavam rodeando la Cueva.

 

Flores à porta de la Cueva de Altamira. Flores para os bizontes

A partir da visão destas flores, tudo começou a correr melhor na nossa caminhada. Eu fiquei a tirar fotos enquanto eles foram tirar os bilhetes para entrarmos e cumprimentar todo esse maralhal que em tempos caminharam a meu lado.

Com o tempo já bem melhor e após observarmos os velhos companheiros de las cuevas, reiniciamos, mais uma vez, a nossa caminhada, sem objectivo definido. A definição era global - Los Picos!

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

Vilar Formoso- Cilleruelo de Bezana

Uma parte dessa caminhada pelos Picos, desenvolveu-se, antecipadamente, também, na cidade de Burgos, ainda distante dos nossos objectivos.

Esta cidade foi fundada em 884 AD, como uma fortaleza (não sei por quem).

Burgos está situada na Comunidade Autónoma de Castilha e León ou, preferindo, contando de West para Lest, León e Castilha (foi assim que aprendemos antigamente - Reinos de Leão e Castela). Situa-se a sul da Cordilheira Cantábrica, a 856 mts acima do nível do mar (mais ou menos, uma altitude semelhante ao planalto da Naia, lá pelas minhas Montanhas Lindas).

Para além de uma rápida visita turística, da História de Burgos nada sei, apenas me recordo que foi ali que o Generalíssimo Franco instalou o seu Estado Maior e dali comandou as suas forças militares até à vitória na Guerra Civil espanhola.

Mas Burgos é uma cidade bonita e é atravessada pelo rio Arlanzon, sobre o qual existe uma ponte a que eu chamo "a caminhada das estátuas", pois existem por ali, estátuas de alguns dos famosos de Castela, incluindo Ximena a esposa do Cid e também, alguns dos seus inimigos. Um bom sítio para caminhar entre a história!

El C

Burgos é uma cidade rica em Arte Gótica, como as igrejas de Santa Gadea, do séc. XII, de Santo Estevão, séc. XIII, São Gil, séc. XIII-XIV, o Hospital del Rei, os velhos conventos das Carmelitas e Agostinhas e, a sempre inesquecível Catedral de Burgos, para onde foram transladados os restos mortais do meu amigo Cid. A propósito, também existe lá o solar del Cid, também um belo exemplar da arte gótica.

Mas Burgos é também a terra de El Cid o Campeador, que nasceu em Vivar de El Cid, ali pertinho de Burgos, cidade que se situava na rota de Santiago e que foi capital do Reino de Castela.

Para além disso, apenas vos posso dizer que gostei de caminhar por Burgos, numa tarde de sol, no dia 10 de Julho de 2007, apreciando a estátua do meu amigo Cid e de todos os outros que ali permanecem a ouvir o cântico das águas do rio Arlanzon.

Depois de uma última olhada pelas suas praças e à sua catedral, arrancamos pela estrada ou, se preferirem, pela carretera N-623, deixando o Vivar del Cid à direita e prosseguindo rumo a destino incerto, apreciando as paisagens dos montes cantábricos virados a sul e que começavam já a ser cobertos por nuvens ameaçadoras e íamos observando todos aqueles picos, de cujas entranhas saíam  sons imaginários  das imaginárias trombetas cantábricas, deixando o meu amigo Apolo um pouco à esquerda, só parando a 83 kms de Burgos, numa localidade chamada Cilleruelo de Bezana, onde nos instalamos a ver se sacudíamos um mal que nos persseguia e a que chamamos cansaço. 

 

 

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira