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As Caminhadas do Ventor

Pelos Trilhos da Memória

As Caminhadas do Ventor

Pelos Trilhos da Memória

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Como sabem, o Ventor saiu das trevas para caminhar entre as estrelas.
Ele continua a sonhar, caminhando, que as estrelas ainda brilham no céu, que o nosso amigo Apolo ainda nos dá luz e que o nosso mundo continuará a ser belo se os homens tentarem ajudar..


27.07.11

Os Quatro Cavaleiros


Ventor

São quatro!

São quatro cavaleiros negros que se aproximam de mim, em grande cavalgada. Já baixaram o elmo, ajustaram os capacetes, colocaram as lanças em riste e iniciaram a sua caminhada; já estão a experimentar o trote e, não vai tardar muito, utilizarão toda a velocidade que os cavalos negros lhes permitam.

Normalmente, quando falamos em quatro cavaleiros, só nos lembramos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse e, na verdade, esses cavaleiros, estão metidos em tudo que tenha como objectivo final, o fim do mundo.

Mas, eu já desmascarei esses quatro que se perfilam, contra mim, contra o meu Universo, numa luta total.

Sim, porque todos nós temos o nosso Universo! Um Universo onde as lutas se vão desenrolando, durante a nossa caminhada até ao desfecho final. Muitos, desaparecem, mesmo sem sequer encararem um dos quatro cavaleiros. Chama-se a isso, o azar!

Outros, acabam por enfrentar um, dois, três ou, mesmo, os quatro cavaleiros. Uns mais lentamente, outros mais depressa, saem sempre derrotados numa dessas lutas que se vão desencadeando nesse universo em que somos transportados todos os dias - o nosso universo!

O Senhor da Esfera, definiu para cada um de nós, o nosso universo pessoal, também o nosso universo mais abrangente, onde cabem todos aqueles que nos apetece que caminhem a nosso lado e também aquela Esfera alargada, onde os cavaleiros podem caminhar connosco, juntos, a passo, a trote, em cavalgada!

Por mim, já há alguns anos que enfrento, sem alardes, esses quatro cavaleiros que fazem parte da nossa Esfera Global e que, o Senhor da Esfera, mesmo que queira ou, mesmo que quizesse, por nós, nada pode fazer. Esses cavaleiros fazem parte do nosso destino, em todos os dias da nossa caminhada!

Eles estão danados comigo porque eu identifiquei-os, coloquei-os na mira da minha lança e informei-os que estou preparado para o combate. Isso eles não me perdoam! Nunca me perdoarão!

 

 

Por enquanto só mostro o meu estandarte, aos meus inimigos

Tal como eles, os cavaleiros negros, eu apetrechei-me dos pés à cabeça, equipei-me e preparei-me para um braço de ferro com eles. Um contra quatro! Já coloquei o meu capacete, já baixei o meu elmo, já levantei a minha lança e, como não podia deixar de ser, estou preparado para uma luta sem quartel.

Assim, perante o mundo, vou identificar, um a um, os meus inimigos!

Reumatismo, o primeiro cavaleiro negro a atacar o Ventor! Creio que, exactamente, por ser o primeiro, deixarei para ele o combate final!

Colesterol, o segundo cavaleiro negro a atacar o Ventor. São ameaças sobre ameaças. Ele vai cair aos olhos desse outro cavaleiro a que dei o nome de Reumatismo.

Tensão Arterial, o terceiro cavaleiro negro a tentar acomodar-se nas minhas trincheiras mas, a minha lança, esburaca todos os buracos onde ele julga poder acomodar-se. Com este cavaleiro, a luta já é sem quartel. Trava-se nas ruas, nas esquinas, nos supermercados, nas despensas, nas cozinhas, nas ... Com ela, a disputa já é de vida ou de morte.

"Diabrete", o quarto cavaleiro negro que se prepara para o combate final, tal como eu. Este cavaleiro, tal como o primeiro, apresenta-se completamente armadilhado e, até no elmo utiliza radares para tentar penetrar mais profundamente nas minhas trincheiras de defesa.

A minha lança - a lança do destino

Estes cavaleiros estão espavoridos porque se sentem detectados pelas defesas do Ventor.

Porém, o cavalo usado pelo Ventor, neste momento, é cinzento, quase indefinido e, montado nele, o Ventor vai travar uma luta sem quartel, contra os alazões negros utilizados pelos seus inimigos.

Antar? Onde  andas tu Antar? Tu que sempre me tens valido em sonhos terríveis! Agora, Antar vai ser a sério! A luta vai ser real e sem quartel!

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

16.07.11

Diálogo no Chiado


Ventor

Na nossa caminhada pelo Chiado a 11 de Julho, p.p., concluímos que o tempo foi pouco.

Vindo da Praça Camões, entrei na Igreja dos Italianos, a nossa Igreja do Loreto, do estilo Barroco tardio, pela porta da Rua da Misericórdia, conversei com o Senhor da Esfera e saí para o Largo Do Chiado, dando de caras com a Igreja da Encarnação (inaugurada em 1708, destruída pelo terramoto de 1755 e reconstruída, em 1785). Então, recordei-me das conversas que tive com os "sabidos" no decorrer dos anos, sobre esta bela zona de Lisboa, quando eles me falavam de que, por aqui, entre estas duas igrejas, passavam as muralhas de Lisboa, mandadas construir pelo Rei D. Fernando (séc. XIV) e, ficava, aí, a entrada de Lisboa, a porta das muralhas, conhecida como a porta de Santa Catarina.

 

 

Camões a observar o Largo do Chiado pelo local, entre as igrejas do Loreto, à sua esquerda e a igreja da Encarnação à direita, onde ficava a Porta de Santa Catarina

Dentro das portas de Lisboa, desta porta de Santa Catarina, ficava a bela cidade de Lisboa, a cidade fina, cheia de burguesia, de nobreza, da chamada gente de bem mas, fora das portas, do local onde hoje fica a Pç. Camões, para cima, ficava o Bairro Alto, já então, uma zona do chamado povo "ralé", de gente da boémia, por onde existiam tabernas e mulheres da vida (umas libertárias) que, então, ajudavam a animar o bulício de fora de portas, em volta da cidade amuralhada. Ainda hoje, a zona do Bairro Ato, continua a ser uma zona de folia. 

Junto à velha Igreja do Loreto (a tal Igreja dos italianos), uma devoção a Nossa Senhora do Loreto, trazida até Portugal pelos italianos, mercadores venezianos e genoveses, cerca de 1200 A.D., ficava uma das torres da porta e a outra torre ficava do lado oposto. Com o tempo, essas torres e muralhas foram sendo destruídas e a torre norte começou a ser destruída na reconstrução da nova Igreja do Loreto, em 1785, 30 anos depois de ter sido destruída pelo terramoto de 1755. Ainda hoje, se podem ver no Centro Comercial Chiado, uma amostra dessas muralhas de D. Fernando.

 

 

Pessoa e o Poeta Chiado, observam do local que já esteve dentro das Muralhas Fernandinas, o Camões do lado de lá da porta de Santa Catarina, o lado boémio

Pensando em tudo isso, comecei a ouvir algum alarido à minha esquerda. Ao olhar para o sítio de onde saía o alarido, vi, no meio daquela gente toda, uns sentados nas esplanadas, outros caminhando em todos os sentidos e outros ainda, a tentar observar o que se passava mas, na verdade, a única coisa que sobressaía, era o braço do poeta Chiado, um pouco levantado, a dar as boas-vindas ao Ventor que se aproximava.

"Pessoa! Pessoa!... Nandinho"! - gritava o poeta Chiado, o poeta António Ribeiro, nascido, em Évora, e que foi contemporâneo do grande Luís de Camões. Esta estátua foi levantada, em 1925, pela câmara de Lisboa, em homenagem a este mestre do sarcasmo, na mais nobre zona de Lisboa. Ele ficou conhecido como o poeta Chiado, por ter morado ali, pois toda aquela zona, se chamava Chiado (zona de chiadeira, barulhenta, bulício...) até que, no séc. XIX, deram o nome de Rua Garrett, em homenagem a esse grande escritor dessa colectânea poética - Folhas Caídas - e das Viagens na Minha Terra, deixando ficar, o Largo do Chiado.

 

 

O Poeta Chiado, tenta explicar ao Fernando Pessoa, como é belo dar alguns piropos às mulheres lindas, sejam elas estrangeiras ou nacionais

 - «O que foi pá»? Perguntou Pessoa. «Já estou farto de te ouvir de noite e de dia. Porque raio se lembraram de me colocar aqui? Eu sei que a culpa foi minha! Falei com um bicho-careta que gostava de ficar aqui às portas da Brasileira e da Havanesa, porque sempre seria melhor encontrar aqui os meus amigos de outros tempos, mesmo os que não foram do meu tempo porque, é aqui o ponto de encontro de todos aqueles que deixaram "mensagens" a Portugal. Mensagens que pouco valeram, mas deixaram! Nem à Mensagem do Grande Camões (Lusíadas e, não só), nem à minha grande "Mensagem" ligaram importância. isto até me parece um país de surdos e cegos. Nem ouvem, nem lêem»!

"Está bem, Nandinho! Já sei que agora, mas já é tarde, preferias ter ficado junto da tua velha porta ali atrás, frente ao teatro S. Carlos. Mas lá acabavas por ficar sem alma, pois morrias de solidão. Aqui, eu sei que estás bem vivo, animas a clientela destas montras todas e sempre vais esperando que o Eça, venha do seu cantinho, no Grémio Literário, beber a bica e comprar o charutinho para uns dedos de conversa.

E, quando eles andam por aí, procurando a salvação, sempre podes ir observando a minha técnica do piropo com estas mulheres lindas que por aqui passam, me ouvem, sorriem ou ficam carrancudas e até há algumas com esperança de me fazerem descer daqui à força mas, isso requeria muito trabalho e não vão nisso. É a minha safa"!

 

 

Fernando Pessoa, faz um gesto, com a mão, ao poeta Chiado, a tentar informá-lo que já está farto da conversa dele 

"Eu sei que tu te envergonhas com as minhas conversas sarcásticas e chegas a recear que eu volte para o Aljube. Tem calma!

Eu só insistia a chamar-te porque daqui de cima já vi que o Ventor caminha ao nosso encontro, depois de conversar com o Camões e podes crer que quando ele sair com aquela nova carroça puxada por muitos cavalos esquisitos, vai acabar por se meter com o Eça, ao subir a Rua do Alecrim. Dirá mal do bife do Entrecôte e continuará rumo à Amadora, depois de passear o seu malmequer pelo Chiado e nos dizer que continuam a sonhar com isto"!

«Está bem! Já sei que o Ventor se vai sentar à minha mesa e o seu malmequer também, mas tu chateias-me e eles não! Ainda meto uma cunha ao Ventor para ver se arranja uma mordaça para te tapar a boca».

"És um desmancha prazeres, Pessoa"!

A conversa daqueles dois acabou por se agudizar e eu acabei por debandar. Mas não sou capaz de passar no Chiado e não ligar àquele poeta Fernando Pessoa e àquele outro que nasceu em Évora e lhe deram o nome de António Ribeiro, depois conhecido como poeta Chiado.

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A casa velha, implantada na serra do Cercal, debruçada sobre o rio Mira

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