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Como sabem, o Ventor saiu das trevas para caminhar entre as estrelas.
Ele continua a sonhar, caminhando, que as estrelas ainda brilham no céu, que o nosso amigo Apolo ainda nos dá luz e que o nosso mundo continuará a ser belo se os homens tentarem ajudar..



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11
Jun09

O Cuco

Luiz Franqueira - Ventor

Hoje ouvi cantar o cuco!

Há muitos anos que caminho por S. Pedro de Sintra e seus arredores e, nesta época do ano, Primavera-Verão, todo esse tempo procuro ouvir este amigo de sempre.

Hoje, tive a sorte que há muito esperava.

 

Esta noite sonhei que andava a passear por campos lindos, a tentar fotografar bichos e vejam que, para além de flores e para azar meu, só vi um louva-a-deus. Não havia qualquer outro bicho, de qualquer forma ou cor. Acordei muito desapontado!

 

 

Caminhava entre as silvas floridas

 

Mas, quando ontem à noite me deitei, disse à dona do Quico: "se estiveres bem, um dia destes, gostava de ir ao café da Natália, comer dois travesseiros, beber o café e dar a minha voltinha dos tristes".

Hoje, de manhã, levantou-se e disse-me: "arranja-te, quero ir beber um café"! Preparamo-nos e, já a caminho, perguntei-lhe onde queria ir e se estava bem que escolhesse. Ela sabia que eu gostaria de ir a Sintra e disse-me para ir à Natália. Lá fomos nós, eu ela e a mãe, ficando o Quico a guardar a casa.

 

 

Deixo aqui as ginjas, simbolizando outras fruteiras que me serviram de alvo

 

Chegados ao Café da Natália, bebi o café e comi dois travesseiros e, como quem não quer a coisa, meti sapatos a caminho, ficando elas à minha espera, na esplanada, à sombra.

Por fim, sempre cuscando o cântico deste meu amigo, ouvi um som esquisito por ser anormal mas, como ia a passar uma camioneta, nem liguei.

De repente, e sem qualquer dúvida, lá estava o som que eu tanto esperava: "cucu-puti, cucu-puti, cucu-puti"! Exactamente três vezes!

 

Ele passou a voar na minha vertical e, pareceu-me que já tinha cantado antes, mas com tanto barulho da camioneta, fiquei na dúvida. Porém, logo de seguida, todas as dúvidas se desfizeram. O meu amigo voltou a encontrar-me!

 

 

Enquanto ia fotografando o que me interessava, apareceu no ar uma maravilha destas com o seu lindo cântico (este tirei da Wikipédia)

 

Passaram tantos anos e nunca mais ouvi cantar o cuco em Adrão. Em Moçambique, não sei se o ouvi cantar se sonhei. Ainda hoje, 40 anos depois, vivo nessa dúvida!

Durante anos, nas minhas caminhadas pelo Alentejo, ouvia sempre o cuco cantar junto à foz do rio Mira. Na margem sul, na margem norte ou sobre o rio, mas sempre a voar. Depois deixei de ir para Milfontes e deixei de ouvir o cuco.

 

Às vezes, quando passo por Milfontes, lembro-me do cuco, mas é fora da época e nem penso nele. Há 3-4 anos, lá para os lados do Malhão, perguntei a um amigo se já tinha ouvido o cuco cantar naquele ano. A resposta era que não, que ele ainda não tinha dado um ar da sua graça. Ele a acabar de falar e o cuco na nossa vertical com o seu cucu-puti .. cucu-puti ...

Passou-se este tempo todo e eu nunca mais ouvi cantar o cuco! Mas todos os anos ia renovando a esperança de ouvi-lo e, exactamente, onde o ouvi hoje. Não percebia porque não ouvia o cuco em redor da serra de Sintra!

 

Vocês dirão: "e que tem isso de especial"?

Nada! Mas apetecia-me ouvir cantar o cuco!

Todos sabemos que se trata de uma ave parasita, mas de parasitas está o nosso mundo cheio e esses parasitas a que me refiro, cantam bem mas não me alegram, enquanto que o cuco canta muito melhor e alegra-me bem!

 

 

Uma ferreirinha, uma das aves parasitadas pelos cucos (tirei-a da Wikipédia)

 

Por isso, hoje, registarei na minha agenda que ouvi cantar o cuco, às 11:06 horas. Ainda fiquei por ali a ver se o ouvia repetir o cântico, mas não. Ele sabe que eu lhe podia chamar parasita e seguiu outro rumo ou, então, seguiu o meu, mas não cantou!

 

 

O pisco de peito ruivo, mais uma das aves parasitadas pelos cucos, tenho lindas, (mas tirei esta da Wikipédia)

 

Entretive-me com outros bichos! Com as ovelhas, as borboletas, as flores das silvas, outas flores, dois gatos apavorados e escondidos no meio dos fetos e das silvas. Percebi logo porquê! Uma águia bem grande andava a caçar e eu só a vi porque ela gritava para todo o seu mundo que andava por ali o Ventor.

 

 

A águia, bem grande, que apanhei já muito longe contra a sombra dos eucaliptos

 

 

Uma gatinha aterrorizada ao ouvir o pio da águia. Ela estava de olhos no céu antes de eu tirar a foto

 

 

Esta gatinha preta estava também aterrorizada, espalmada entre os fetos com o olhar no rasto da águia. Ao ver-me, achou que eu seria o seu salvador e o pinheiro grande, à sua esquerda, não me deixou tirar a foto à águia

 

Quando perguntava às pessoas de idade mais avançada se ouviam por ali cantar o cuco, a resposta era invariávelmente a mesma. "Dantes cantava, agora não se ouve"!

Mas hoje eu matei saudades, ao ouvir o cântico do cuco.

 

 

Uma felosa que acabou por desproteger os seus filhotes e cuidar deste brutamontes

 

Recordo-me de, quando pequenino, meu pai me dizer que os cucos (cucas concerteza) punha os ovos nos ninhos de outras aves mais pequenas. Por exemplo, nos ninhos dos chascos! A mim, tudo isso me fazia uma grande confusão, mas se o meu pai o dizia, seria verdade  concerteza!

 

Sagres, a beleza dos mares que enfeita o rio Tejo para alegrar o Ventor, nas suas caminhadas

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